16 de junho de 2006

Se tudo tem começo: eis o do meu diário virtual.

Sempre quis ter um diário. Imaginava que seria útil um dia pra rememorar essa vida louca, instigante, sofredora-prazerosa. Algo assim. Bem intimista mesmo. Eis que me ocorre que o meu primeiro diário pra valer será este aqui. Um Blog. Viva a revolução! (segundo Moreno, toda transformação que ocorra com o velho que o torne completamente distinto do novo pode ser considerado uma revolução, em oposição as reformas. E assim é com as antigas cadernetas de papel e os atuais blogs). E assim eu encaro mais este desafio, mais este projeto, que espero, sinceramente, não ter que abandoná-lo na primeira esquina.

A primeira coisa a tratar aqui é algo simbólico pra mim. Trata-se do dia em que se completou a vigésima quarta volta translacional da minha existência como a conheço atualmente. O dia começou aparentemente igual aos outros, e não podia ser diferente. Estava frio e chovia. Acordei cedo demais para um feriado - isso sempre acontece, nos dias em que tenho que trabalhar a coisa não funciona tão bem assim, ainda bem. Estava tudo pronto pra partida à Vera Cruz, a terra da minha infância infame, ativa e ingênua. Fomos eu, Carol, os sobrinhos - Arthur e Daniel - e minha vó. Percebi como era incrível como as coisas naquele recanto estavam do modo como sempre estiveram. De cara vi minha bisavó - "mãe Rita" -, é como todos do clã a chamam. Ela é uma das poucas pessoas com quem eu ainda posso me orgulhar, uma velha de noventa e tantos anos, lúcida, católica e carinhosa com todos. Guarda na parede da sua minúscula sala de estar uma foto, de uns vinte anos atrás, em que estou eu e minhã irmã. Os únicos entre suas dezenas de bisnetos que gozam de tal privilégio, pra mim chega mesmo a ser uma honra.

Aproveitei pra rever o maior número de pessoas que significaram alguma coisa na minha infância por aquelas bandas. Logo estava com um primo fumando um Free e tomando uma bebida tão forte que minhas orelhas ardiam. Os sobrinhos estavam brincando e correndo soltos com a primalhada e todos os bichos possíveis de se encontrar naquele terreiro. Danny me confessaria mais tarde que havia adorado aquele dia. Na verdade, a primeira coisa que fizemos foi visitar o túmulo do meu avô, Danny se decepcionaria ao fim da visita por não encontrar seu comprade, o Puro Osso. Aproveitei que o dia estava tranqüilo e decidi tomar mais algumas cervejas e fumar alguns cigarros. A tarde já estava definhando, era hora de cair fora.

Quando me dei conta já estávamos novamente em Natal. Primeira parada: Av. Maria Lacerda. O Flávio me contara que iria rolar uma beat reunion extraordinária por aquelas redondezas. Quem me conhece sabe de onde estou me refirindo. Resolvi comprar mais algumas cervejas e subir logo. Liguei e soube que já estavam quase todos por lá e que já estavam curtindo bastante. Encontrei Flávio, Moon, a quinta elementa e um desconhecido. Sempre tem alguém desconhecido por lá, algum amigo do Moon que excepcionalmente se aventura a curtir um pouco das nossas loucas viagens. Só faltava o velho búfalo Lee, mas eu sabia que este viajara a fim de cumprir uma missão da mais alta importância e que a esta altura já devia se achar por outras paragens, ao sul. Estava rolando Bebé de Natércio, o som preferido do Flávio desta temporada, que se encerrará provavelmente no próximo verão. Todos já estavam de saco cheio daquele som. Como eu tinha as credenciais daquele dia, eu podia opinar decisivamente quanto ao som que ouviríamos, pelo menos este foi o acordo que surgiu subitamente a fim de passar a perna em Bebé. Então ouvimos pela segunda vez naquele dia (a segunda deles e a primeira minha, posto que eu acabara de chegar) Conspiração Apocalipse, o som mais alucinante, áspero e sincero que o rock nordestino conseguira produzir. Ainda ouviríamos outros sons, inclusive aquelas breguices francesas recheadas de "mon amour". Conversamos novamente sobre tudo. Rolaram altas rodadas de tudo. Resolvi ligar pra alguém que eu amo, Juliana. Conversamos sobre o papo que vinha me enchendo a cabeça desde a quarta-feira. Dei a minha opinião, ouvi a dela. Prometemos nos ver o mais rápido possível. Desligamos. Daí eu partir para fazer o que ela havia me recomendado: curtir o resto do meu aniversário!

Desci junto com a quinta elementa (é assim que chamo, carinhosamente a Sandra, por ser ela a provável quinta integrante da nossa comunidade beat, juntando-se assim a mim, Old Bull, Moon e Flávio), fomos comprar mais algumas cervejas. Logo após estas, eu já me encontrava completamente bêbado e cansado. Deitei e resolvi relaxar até recobrar a minha lucidez. A idéia de ter que acordar cedo e bem no outro dia me martelava a consciência. Saltei da rede e falei: "Chegou a minha hora, vou embora agora!". Caí fora dali.

Caminhei até a minha casa (putz, quase meia hora). 15 de junho de 2006. Um dia e tanto pra alguém como eu.

PS: Quando iniciei o segundo parágrafo deste post já estava em mente o segundo, logo saberemos o por quê.

Um comentário:

Juliana disse...

o primeiro post de um blog sempre tem um ar de infinito. por isso é que depois de tempos eu volto para olhá-lo: soa bem ver o que ficou entre o infinito e o posto em prática.

então o texto começa com a empolgação nos moldes blogueiros e ruma ao estilo kerouac?

:*