22 de dezembro de 2008

Trabalho Noturno - parte II

Para quem não leu a primeira parte aí vai seu endereço:
http://bsadan.blogspot.com/2008/12/trabalho-noturno-devagar-seu-estpido.html

Passados vinte ou trinta minutos, não se ouvia um barulho sequer de dentro do velho bar. Comecei a especular sobre o que estaria dentro daquele velho freezer... Mas é claro! Só poderia ser um cadáver! No entanto, só essa certeza não bastava. Precisava, ainda, de provas, testemunhas... ótima hora para chamar a polícia e presenciar um flagrante de verdade e, sendo eu uma testemunha honesta, não haveria de permitir qualquer tipo de acordo nem muito menos deixar passar nenhum suborno...

Saquei o celular, digitei 190 e prontamente uma voz metálica assumiu o comando da conversa: “(...) posso ajudar?”, ao que respondi: “deixa pra lá...” e desliguei. Justo nesse momento a porta do boteco abriu-se de vez, e o jovem com o rosto enrubescido e os olhos em chamas saltou do bar quase que aos ponta pés contra todos os cestos de lixo do beco. Continha um grito que sufocava-o mais que tudo. O terceiro suspeito saíra das sobras e finalmente apresentava um rosto esquálido e embranquecido, tão assustado e nervoso quanto qualquer outra coisa já vista. Chegava a ser um nervosismo contagioso. O meu abrupto movimento quase denunciou a minha presença à cena do crime. O fantasma das sombras rastejou e saltitou até cair sobre as costas do jovem dando-lhe um baque tão poderoso que quase arruinou suas expectativas de voltar a andar outra vez. Só depois de um minuto em que os dois estavam prostrados no chão um sobre o outro é que surge uma primeira palavra balbuciada: “Você é louco?! Não sabes o que acabastes de fazer?”. Certamente quem disse isso foi o velho abutre que com uma certa coerência no olhar chamava a atenção do jovem intempestivo. A minha curiosidade vasculhava mentalmente a zona interior do bar, em busca de algum sinal do velho que fora até então o protagonista de todo aquele sórdido episódio. Uma noite que jamais deveria ter se passado em minha vida.

E pra acabar de vez comigo ouço o discurso mais desesperado e realmente é um desabafo do jovem aprendiz: “Meu pai, aquele que agora já possui frias carnes e repousa sobre uma poça de sangue arrancada violentamente das suas tripas por mim, nesse exato momento, se ainda estivesse vivo, deveria ser considerado por toda a humanidade como o verme mais desprezível que ousou pousar os pés sobre esta terra. Tu bem sabes que é assim titio. Pois teu irmão nunca poupou nenhuma alma em sua vida, inclusive as mais ingênuas, as pequenas Lucile e Flavinha, minhas pobres irmãzinhas, a quem tanto amei e que hoje, graças a estupidez e a brutalidade daquele cadáver podre, não estão mais junto a mim. Além disso, tendo minha mãe, e as outras duas esposas deste monstro ainda insepulcro, sofrido igual sorte, ou seja, sua total ruína e loucura. Tudo justifica a liquidação que dei a vida de um canalha podre e vil como era teu irmão! Olhe para mim! Veja no que me tornei... por que será que não consigo mais trabalho honesto? Como antes? É... quando eu tinha a Camila e pretendia ter filhos e talvez até cair fora dessa cidade, desse beco e dessa horda de fracassados e cafajestes... esses do tipo do teu irmão e seu também. Mas veja onde me meti: sou um ex-presidiário, um fugitivo para ser mais sincero, me transformei num procurado porque caí numa armadilha traiçoeira do meu pai. Certa vez ele me propôs um trabalho, disse-me que seria a minha grande chance de vencer na vida e finalmente casar com minha querida Camila. Fiquei entorpecido por vários dias só de imaginar tal possibilidade.”

A essa altura, eu estava perplexo com tais revelações mas ao mesmo tempo satisfeito porque todas as minhas expectativas estavam sendo cumpridas... Tratavasse o velho de mais um mal-feitor, cujo filho acabara de dar cabo a sua vida... Apenas esse elemento surpresa me incomodara profundamente... oh, claro... porque eu deveria ter percebido que tanta cumplicidade assim, só poderia se tratar mesmo de um drama familiar... e, no entanto, para mim só ficou claro após o longo e convicto discurso, daquele que não alimentava o menor remorso por ter cometido o mais violento e fulminante parricídio que tivera eu ouvido falar até aquela presente noite. Mas o garoto tinha muito mais a falar, e agora estava eu a me associar e a me solidarizar tanto com aquele jovem que quase o fiz publicamente ali mesmo, me revelando aos dois atores da cena mais emocionante que pude presenciar nas ruas de Natal. Porém resolvi ficar quieto e ouvir o que mais o garoto tinha a dizer: “...Mas veja só titio, o patife que você insistia chamar de teu irmão, preparou uma armadilha contra mim e me fez cair nela, você bem sabe disso... e onde eu fui parar? Na cadeia! Fui incriminado por estar diante do infeliz que ele matou, afinal ele precisaria manter-se livre para seus negócios sujos. Mas quem ele escolheu pra bode expiatório? Eu! E tu achas meu tio que mais uma vez eu iria esperar a mesma sorte. Iria ficar a guarnecer mais um cadáver posto em um freezer há mais de dois dias?! Pra limpar a barra do meu pai?! Tenhas a Santa paciência. Eu não sou louco nem muito menos masoquista. Resolvi por mim mesmo que era chegada a hora de dar fim àquele patife. Pois bem, agora aqui estou eu todo ensangüentado, mas de alma lavada. Porque vinguei de uma vez por todas aqueles que se arruinaram nas mãos deste maníaco.” “Chega!”, interrompeu com um ataque de desespero o tio do jovem trabalhador, “uma coisa é certa, tu tens razão do julgamento que fazes de mim e de teu pai. Realmente somos figuras desprezíveis e seria bom mesmo que no mundo não existem tantos assim como nós, porque a nossa filosofia é causar a dor, o desespero e a morte nas pessoas. Mas isso não é tudo! Uma vez que já estamos nesse mundo mesmo, às vezes alguns ratos como nós alcançamos um estágio de reflexão. Essa reflexão pode nos elevar a outros estágios, esses superiores... Não temas, não quero te enganar mais uma vez! Apenas quero eu te abrir os olhos e lamentar o primeiro crime que cometestes... pois é assim, já que teu pai, apesar de ainda manter sua grosseria, não era mais um bandido... apesar de que para o mundo a escória não tem jeito... Oras! Deixemos isso agora de lado, venha aqui... venha até o cadáver do teu pai... tu achas que dentro do freezer encontra-se um infeliz morto?! Estás enganado!” Meu coração saltitou, sem entender mais nada. Quando o jovem e o tio finalmente abriram o baú refrigerado nada mais encontraram do que cerca de oitenta quilos de carnes, de todos os tipos... um amálgama avermelhado e sanguinolento.

O filho matara o pai como forma de vingança contra os erros do passado do seu pai, e também como uma espécie de defesa preventiva diante mais um suposto crime iminente, mas que não se cumpriu. E aí reside a maior razão de seu instântaneo arrependimento. Justamente por se tratar de uma fantasia, cujo tio após vinte minutos de explicação desvendara ao sobrinho recém fugido da cadeia estadual que nos últimos cinco anos, ele e seu pai haviam se recuperado aos poucos e que o submundo não era mais um lugar onde os achariam. A razão de todo o sigilo da operação, o transporte de carnes na calada da noite tinha a ver com o novo negócio ao qual os irmãos iriam se meter em sociedade. Tanto o pai quanto o tio do jovem ex-presidiário decerto ainda não tinham todas as contas acertadas com seus credores e principalemente com a vigilância sanitária, acreditavam poder conseguir isso mais adiante quando o negócio finalmente se consolidasse. Ao ouvir todo esse relato o garoto não esboçou nenhuma reação. Deu com os ombros para o tio, virou as costas para o cadáver de seu pai e alertou que ao amanhecer entregar-se-ia a primeira DP.

Só aí pus-me a refletir: “quanta sorte a vida destina a alguns miseráveis? Que por mais que tentem consertar as besteiras dos outros, acabam afundando-se em suas próprias besteiras. Estas maiores ainda. É aí que eu compreendo de uma vez por todas: não existe boa sorte. Existe uma sorte que não possui um caráter (boa ou má). O que existe sim é o estar pronto para cometer um ato de ousadia, seja um acerto de contas, uma conquista, uma aposta, uma competição. Ter sorte é ter ousadia. É arriscar. O jovem Cássio arriscou fazer justiça... Agora será a justiça que fará bom proveito de mais um pobre espírito desgraçado.”

7 de dezembro de 2008

Por dois anos

Hoje, eu tenho mais uma oportunidade de me dirigir ao passado. Ou melhor, mais uma oportunidade de me dirigir a um grande erro do passado. Como diria um grande amigo meu: “poesia é muito mais do que um bom gingado de métrica e rima, ‘es decir’, é ser generoso, é dar voz quando a alma tem algo a dizer”. Se assim é com a poesia, de igual modo é quando se deseja acertar com o passado, com um amor do passado. Quero me dirigir a esse amor perdido. Sei que é impossível reatá-lo, reanimá-lo, tê-lo de volta junto a mim. Faço isso, então, por generosidade com meu coração. E assim procedendo, talvez esteja agindo com um despropositado egoísmo, pela centésima vez na vida. Mas isso não me importa!

Tu, quem conheci acidentalmente e que, também de maneira acidental, me apaixonei. Agora, fico muito aborrecido e desconfiado com esses tipos de acidentes, porque simplesmente creio que eles antecipam demais os encontros. Encontros que poderiam ter sido deixados à sorte do futuro, e que por pura inquietude, desgraçadamente, são antecipados. E é essa antecipação que por vezes arremata um coração desguarnecido de generosidade e bom senso, para não dizer que este coração esteja também desprevenido e imaturo. Oh! se fosse hoje e não há dois anos, será que este coração cumpriria as expectativas que ora roga? Certamente que não! Talvez fosse preciso pelo menos mais uns cinco ou dez anos. Mas novamente vos digo, que não é objetivo deste julgar-me ou muito menos defender-me. Como disse no início, quero apenas comunicar-me. De coração para coração. E isso só será completado se tu, e mais ninguém, um dia ler-me. Seja qual for seu interesse ou sua motivação.

Finalmente, chegou a hora de refletir, de expressar-me. Porque antes meu coração só dera lugar ao silêncio. E o silêncio corroe os nervos e amargura a alma. E eu que sempre fui apaixonado pela leveza das relações. Por espíritos delicados. Mas, sobretudo, pelas mulheres que alimentam essa delicadeza com suas personalidades fortes, e alimentam essa delicadeza mais ainda com sua devoção a experimentação e a aventura. Detesto, pois, as conservadoras e tenho dó das mulheres frágeis. E tu tinhas as minhas qualidades preferidas e era, para mim, despida de defeitos. Pudera, tu soubestes cuidar e te dedicar ao nosso tenro namoro, mas sem jamais se tornar uma mulher deprimente ou mal-amada. Mesmo que fosse mal amada. Nosso namoro morrera todos os dias por inanição. Mesmo assim estava lá tu a alimentá-lo. Tu resistias, como uma brava combatente, iluminada pela memória das grandes mulheres. Mas isso tu já sabes.

O que não sabes é o que passara em meu espírito. Nutria ele por ti grande afeição e muito amor, mas não pôde ou não quis dedicar-se a ti. Quantos alertas precisastes me enviar? Quantos ultimatos para uma relação falida teriam sido necessários para que pudéssemos reverter tal tragédia. Não proponho compartilhar uma culpa que é só minha. Pois, quem se esquivou fui eu, quem não telefonou fui eu, quem se escondeu fui eu, quem terminou fui eu. Também não quero pôr a culpa em nenhuma entidade exterior. Uma vez que já localizei a origem e a fonte do meu fracasso: a minha desprevenção, minha imaturidade e meu egoísmo.

O que resta, talvez não saibas, é me dirigir a ti e me prostrar resignado. Pois fui consciente do teu choro silencioso, oculto pelo consolo dos teus lençóis. E ainda assim, mesmo estando consciente e te amando, nada fiz. "Será que te amava mesmo?" perguntar-se-ão todos os espíritos nobres. E seria preciso muita perspicácia para notar que, no fundo, tratava-se apenas de mais um amante covarde, e nada mais. Diante do juízo da história, da paz necessária ao meu espírito e do mínimo de decência contigo e com a memória de teu amor, só me restou cumprir o que exige o meu coração e a minha moral: sinceramente, perdoe-me por tudo! Apesar de não ter parecido, te amei do inicio ao fim!

4 de dezembro de 2008

Trabalho noturno

– Devagar seu estúpido! – urrara o velho morador do Beco da lama – você sabe quanto custou esse maquinário quebrado? E esse freezer? Enfim, todo patrimônio que construí em quarenta e cinco anos miseráveis trabalhando na rua?!

E eu, infeliz, obrigado a testemunhar a discussão mais inepta de toda minha vida. Onze horas da noite. Domingo. Sequer uma viv’alma num raio de dez quarteirões... Sim, eu podia ter certeza disso, não fora preciso certificar-me... Estava claro... Meus ouvidos ultra-apurados e super-sensíveis não conseguira captar, até então, uma batida, uma pulsação humana sequer há mais de duas horas, através da minha vagação lúgubre noite a dentro, naquele maldito janeiro de 2007.

– Vamos logo seu verme! – prosseguira o velho, com sua breve eloqüência infame – temos que sumir daqui antes que sejamos vistos! Por que você acha que escolhi justamente a noite de um domingo para fazer isso?!

Até aquele instante, apenas eu os observava. E até então pensavam, o velho e seu infeliz empregado, estarem sozinhos. Talvez porque eu fiz questão de permanecer por vários minutos inaudível e invisível. Pensei: “que diabos eu vim fazer na rua a uma hora dessas? Agora, servirei de testemunha de alguma trapaça, ou mesmo me transformarei num arquivo, ou melhor, num provável arquivo-morto!”

– Eu tenho que ir mais rápido ou mais devagar? – questionou não sem razão o pobre vagabundo. Por três reais, o infeliz houvera oferecido seus serviços, talvez por quatro ou cinco horas de trabalho. – É isso mesmo seu velho! Como é que posso trabalhar desse jeito? – desabafou o desgraçado, com a cara mais exausta do mundo. O velho silenciou e, como resposta, tomou uma mão da carroça como se quisesse ditar o ritmo que agradara o seu recôndito e malogrado objetivo. E seguiu o seu caminho que ainda era desconhecido por todos os demais seres presentes àquela fétida esquina.

Mas eis que em mim surgiu uma macabra vontade de assistir aquela cena até o fim. Quisera eu, agora, conhecer o desfecho daquela picaretagem. “Tratar-se-ia aquilo apenas de mais um golpe, trapaça ou calote de um velho cansado? Cansado de sofrer ele mesmo toda sorte de calhordices? Ou sê-lo-ia um crime de verdade?”

– Isso aqui pesa pelo menos 80 quilos! – revelou o taciturno trabalhador. Nesse instante, olhei nos olhos do jovem que arrastava a carroça, que passava dos vinte anos, mas não atingia os vinte e cinco. Foi quando tive uma revelação sobre o seu caráter e sobre seu doce espírito: o jovem homem, viciado em trabalho árduo, diuturnamente se dispunha a fazer qualquer tipo de coisa – desde que lícita fosse tal empreitada –, mas no entanto, desta vez, havia em seu olhar um ar de suspeição. E esse estado havia também sobrepujado o meu espírito. A suspeita havia se tornado o signo daquela meia noite. Nada interessava mais a mim do que desvendar qual fosse o vil desígnio daquele velho chapado. Afinal, se eu me metera naquela situação o mais digno para alguém, cuja consciência ambicionara permanecer tranqüila, nas noites quentes da cidade em que pousar a cabeça e dormir é algo dificultoso por natureza, deveria ser conhecer o trajeto dos dois e a finalidade para a qual o velho desejara mover aquela carroça da maneira tão soturna e nada solene pelas ruas e becos da velha Cidade Alta.

Estando agora convicto da minha missão, fiz-me intruso daquela mente insana e irresponsável. Velha mente usurpadora da pueril ingenuidade daquele que convertia todo o seu ser para músculos auto-controláveis, que sob os auspícios de alguns relâmpagos de consciência exigia qualquer explicação que lhe parecesse momentaneamente conveniente. Ciente disso, o velho monstro simplesmente emudecia e não oportunizara sequer uma palavra ao ex-delinqüente que, agora, passara a ser seu novo e abjeto discípulo. Com o controle de um dos braços da carroça, o velho descia a Vigário Bartolomeu abaixo, onde na altura do bar de Nazaré vacilou e finalmente se arrastou até o bar de Nazi e se recostou exatamente onde um vagabundo chamado Rato fora assassinado anos atrás. Neste instante, fitei-os, a cerca de 30 metros, sob a marquise de um velho cortiço, donde meses antes meu atual companheiro de apartamento vivera, a fim de finalmente fechar um cerco imaginário e desbaratar de uma vez por todas aquela semi-quadrilha. Foi quando pude notar um repentino solavanco e um urro estridente emanado pelo velho, que arriou a carroça em frente a um velho boteco, cuja porta deveria estar fechada há anos. Em meio à escuridão e ao silêncio uma porta rangeu. Um terceiro suspeito surgiu. Talvez ele sim, fosse o verdadeiro mentor daquela operação suja.

– Depressa! Entrem! – murmurou uma sobra em meio às trevas. Em segundos a porta fechou-se, e os dois condutores da carroça, juntamente com ela, acharam-se dentro da velha espelunca abandonada. Eu aceitei tornar-me refém da minha própria curiosidade, a ponto de dedicar quase duas horas do meu tempo a fim de me intrometer nos assuntos alheios, em algo que definitivamente não me interessaria, enfim curvei-me diante de um fetiche, que passara a ser a tentativa frustrada de conhecer em primeira mão a execução de um crime ou o desfecho dele. Isso sem ter que ouvir dizer, e sim pela primeira vez ver com os meus próprios olhos.
(continua...)