7 de dezembro de 2008

Por dois anos

Hoje, eu tenho mais uma oportunidade de me dirigir ao passado. Ou melhor, mais uma oportunidade de me dirigir a um grande erro do passado. Como diria um grande amigo meu: “poesia é muito mais do que um bom gingado de métrica e rima, ‘es decir’, é ser generoso, é dar voz quando a alma tem algo a dizer”. Se assim é com a poesia, de igual modo é quando se deseja acertar com o passado, com um amor do passado. Quero me dirigir a esse amor perdido. Sei que é impossível reatá-lo, reanimá-lo, tê-lo de volta junto a mim. Faço isso, então, por generosidade com meu coração. E assim procedendo, talvez esteja agindo com um despropositado egoísmo, pela centésima vez na vida. Mas isso não me importa!

Tu, quem conheci acidentalmente e que, também de maneira acidental, me apaixonei. Agora, fico muito aborrecido e desconfiado com esses tipos de acidentes, porque simplesmente creio que eles antecipam demais os encontros. Encontros que poderiam ter sido deixados à sorte do futuro, e que por pura inquietude, desgraçadamente, são antecipados. E é essa antecipação que por vezes arremata um coração desguarnecido de generosidade e bom senso, para não dizer que este coração esteja também desprevenido e imaturo. Oh! se fosse hoje e não há dois anos, será que este coração cumpriria as expectativas que ora roga? Certamente que não! Talvez fosse preciso pelo menos mais uns cinco ou dez anos. Mas novamente vos digo, que não é objetivo deste julgar-me ou muito menos defender-me. Como disse no início, quero apenas comunicar-me. De coração para coração. E isso só será completado se tu, e mais ninguém, um dia ler-me. Seja qual for seu interesse ou sua motivação.

Finalmente, chegou a hora de refletir, de expressar-me. Porque antes meu coração só dera lugar ao silêncio. E o silêncio corroe os nervos e amargura a alma. E eu que sempre fui apaixonado pela leveza das relações. Por espíritos delicados. Mas, sobretudo, pelas mulheres que alimentam essa delicadeza com suas personalidades fortes, e alimentam essa delicadeza mais ainda com sua devoção a experimentação e a aventura. Detesto, pois, as conservadoras e tenho dó das mulheres frágeis. E tu tinhas as minhas qualidades preferidas e era, para mim, despida de defeitos. Pudera, tu soubestes cuidar e te dedicar ao nosso tenro namoro, mas sem jamais se tornar uma mulher deprimente ou mal-amada. Mesmo que fosse mal amada. Nosso namoro morrera todos os dias por inanição. Mesmo assim estava lá tu a alimentá-lo. Tu resistias, como uma brava combatente, iluminada pela memória das grandes mulheres. Mas isso tu já sabes.

O que não sabes é o que passara em meu espírito. Nutria ele por ti grande afeição e muito amor, mas não pôde ou não quis dedicar-se a ti. Quantos alertas precisastes me enviar? Quantos ultimatos para uma relação falida teriam sido necessários para que pudéssemos reverter tal tragédia. Não proponho compartilhar uma culpa que é só minha. Pois, quem se esquivou fui eu, quem não telefonou fui eu, quem se escondeu fui eu, quem terminou fui eu. Também não quero pôr a culpa em nenhuma entidade exterior. Uma vez que já localizei a origem e a fonte do meu fracasso: a minha desprevenção, minha imaturidade e meu egoísmo.

O que resta, talvez não saibas, é me dirigir a ti e me prostrar resignado. Pois fui consciente do teu choro silencioso, oculto pelo consolo dos teus lençóis. E ainda assim, mesmo estando consciente e te amando, nada fiz. "Será que te amava mesmo?" perguntar-se-ão todos os espíritos nobres. E seria preciso muita perspicácia para notar que, no fundo, tratava-se apenas de mais um amante covarde, e nada mais. Diante do juízo da história, da paz necessária ao meu espírito e do mínimo de decência contigo e com a memória de teu amor, só me restou cumprir o que exige o meu coração e a minha moral: sinceramente, perdoe-me por tudo! Apesar de não ter parecido, te amei do inicio ao fim!

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