– Devagar seu estúpido! – urrara o velho morador do Beco da lama – você sabe quanto custou esse maquinário quebrado? E esse freezer? Enfim, todo patrimônio que construí em quarenta e cinco anos miseráveis trabalhando na rua?!
E eu, infeliz, obrigado a testemunhar a discussão mais inepta de toda minha vida. Onze horas da noite. Domingo. Sequer uma viv’alma num raio de dez quarteirões... Sim, eu podia ter certeza disso, não fora preciso certificar-me... Estava claro... Meus ouvidos ultra-apurados e super-sensíveis não conseguira captar, até então, uma batida, uma pulsação humana sequer há mais de duas horas, através da minha vagação lúgubre noite a dentro, naquele maldito janeiro de 2007.
– Vamos logo seu verme! – prosseguira o velho, com sua breve eloqüência infame – temos que sumir daqui antes que sejamos vistos! Por que você acha que escolhi justamente a noite de um domingo para fazer isso?!
Até aquele instante, apenas eu os observava. E até então pensavam, o velho e seu infeliz empregado, estarem sozinhos. Talvez porque eu fiz questão de permanecer por vários minutos inaudível e invisível. Pensei: “que diabos eu vim fazer na rua a uma hora dessas? Agora, servirei de testemunha de alguma trapaça, ou mesmo me transformarei num arquivo, ou melhor, num provável arquivo-morto!”
– Eu tenho que ir mais rápido ou mais devagar? – questionou não sem razão o pobre vagabundo. Por três reais, o infeliz houvera oferecido seus serviços, talvez por quatro ou cinco horas de trabalho. – É isso mesmo seu velho! Como é que posso trabalhar desse jeito? – desabafou o desgraçado, com a cara mais exausta do mundo. O velho silenciou e, como resposta, tomou uma mão da carroça como se quisesse ditar o ritmo que agradara o seu recôndito e malogrado objetivo. E seguiu o seu caminho que ainda era desconhecido por todos os demais seres presentes àquela fétida esquina.
Mas eis que em mim surgiu uma macabra vontade de assistir aquela cena até o fim. Quisera eu, agora, conhecer o desfecho daquela picaretagem. “Tratar-se-ia aquilo apenas de mais um golpe, trapaça ou calote de um velho cansado? Cansado de sofrer ele mesmo toda sorte de calhordices? Ou sê-lo-ia um crime de verdade?”
– Isso aqui pesa pelo menos 80 quilos! – revelou o taciturno trabalhador. Nesse instante, olhei nos olhos do jovem que arrastava a carroça, que passava dos vinte anos, mas não atingia os vinte e cinco. Foi quando tive uma revelação sobre o seu caráter e sobre seu doce espírito: o jovem homem, viciado em trabalho árduo, diuturnamente se dispunha a fazer qualquer tipo de coisa – desde que lícita fosse tal empreitada –, mas no entanto, desta vez, havia em seu olhar um ar de suspeição. E esse estado havia também sobrepujado o meu espírito. A suspeita havia se tornado o signo daquela meia noite. Nada interessava mais a mim do que desvendar qual fosse o vil desígnio daquele velho chapado. Afinal, se eu me metera naquela situação o mais digno para alguém, cuja consciência ambicionara permanecer tranqüila, nas noites quentes da cidade em que pousar a cabeça e dormir é algo dificultoso por natureza, deveria ser conhecer o trajeto dos dois e a finalidade para a qual o velho desejara mover aquela carroça da maneira tão soturna e nada solene pelas ruas e becos da velha Cidade Alta.
Estando agora convicto da minha missão, fiz-me intruso daquela mente insana e irresponsável. Velha mente usurpadora da pueril ingenuidade daquele que convertia todo o seu ser para músculos auto-controláveis, que sob os auspícios de alguns relâmpagos de consciência exigia qualquer explicação que lhe parecesse momentaneamente conveniente. Ciente disso, o velho monstro simplesmente emudecia e não oportunizara sequer uma palavra ao ex-delinqüente que, agora, passara a ser seu novo e abjeto discípulo. Com o controle de um dos braços da carroça, o velho descia a Vigário Bartolomeu abaixo, onde na altura do bar de Nazaré vacilou e finalmente se arrastou até o bar de Nazi e se recostou exatamente onde um vagabundo chamado Rato fora assassinado anos atrás. Neste instante, fitei-os, a cerca de 30 metros, sob a marquise de um velho cortiço, donde meses antes meu atual companheiro de apartamento vivera, a fim de finalmente fechar um cerco imaginário e desbaratar de uma vez por todas aquela semi-quadrilha. Foi quando pude notar um repentino solavanco e um urro estridente emanado pelo velho, que arriou a carroça em frente a um velho boteco, cuja porta deveria estar fechada há anos. Em meio à escuridão e ao silêncio uma porta rangeu. Um terceiro suspeito surgiu. Talvez ele sim, fosse o verdadeiro mentor daquela operação suja.
– Depressa! Entrem! – murmurou uma sobra em meio às trevas. Em segundos a porta fechou-se, e os dois condutores da carroça, juntamente com ela, acharam-se dentro da velha espelunca abandonada. Eu aceitei tornar-me refém da minha própria curiosidade, a ponto de dedicar quase duas horas do meu tempo a fim de me intrometer nos assuntos alheios, em algo que definitivamente não me interessaria, enfim curvei-me diante de um fetiche, que passara a ser a tentativa frustrada de conhecer em primeira mão a execução de um crime ou o desfecho dele. Isso sem ter que ouvir dizer, e sim pela primeira vez ver com os meus próprios olhos.
(continua...)
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