Em 28 de março de 1968, Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista, então com 18 anos, tomba no restaurante Calabouço, freqüentado por jovens estudantes pobres de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro.
Naquela noite de 28 de março, Edson Luís, juntamente com outros estudantes, organizava um protesto contra as más condições de higiene e estruturação do restaurante Calabouço, cujas obras de reforma haviam sido paralisadas. Na ocasião, a tropa de choque da PM do estado da Guanabara invadiu o local e agiu conforme noticiou o jornal carioca “Correio da Manhã” em 29/3/1968:
“Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fez à bala. Há um estudante morto, um outro em estado gravíssimo. (...) Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa toda discussão sobre se os estudantes tinham ou não razão - e tinham. (...) Atirando contra jovens desarmados, atirando a esmo, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua ação, ontem”.
Essa longa citação fala por si mesma e dispensa qualquer acréscimo. A partir daí, como revolta organizada e ao mesmo tempo espontânea, o povo carioca e brasileiro saíram as ruas para enfrentar o regime autoritário. Na mesma ocasião do assassinato de Edson Luís, um porteiro e um funcionário de escritório foram mortos por balas perdidas.
O corpo do jovem Edson Luiz, morto, foi levado pelos seus companheiros e pelo povo para ser velado na Assembléia legislativa. A missa de sétimo dia se transformou em um ato político contra a ditadura militar. Em 26 de junho de 1968, ocorreu a Marcha dos Cem Mil, a maior manifestação contra a Ditadura Militar até aquela data, como decorrência dos protestos contra a situação dos estudantes e como repúdio ao assassinato de Edson Luís.
Esse era o movimento estudantil brasileiro há 40 anos. Aliado ao povo explorado e oprimido, ainda que fosse uma aliança intuitiva e sem a união estreita com a classe operária, mas o instituto de classe era uma marca sua indiscutivelmente.
Foto: Henrique José
Hoje, se o camarada Edson Luís estive vivo veria, infelizmente, um movimento estudantil dividido e traído pelas direções governistas. Queremos destacar que a divisão do movimento estudantil é empreendida justamente por aqueles que reivindicam a representatividade histórica da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Essa divisão se dá porque a UNE e a UBES dirigem um setor do movimento estudantil para o campo de sustentação e apoio do governo Lula. Este mesmo governo que aplica políticas de corte de verbas da educação para pagar a dívida pública, arrocha o salário dos trabalhadores do setor, impõe uma reforma universitária para adequar o ensino superior aos interesses do capitalismo brasileiro e do imperialismo em geral. Como se não bastasse. ainda aumenta o ritmo de privatização do ensino – seja pela via da fomentação do ensino pago, através do Programa Universidade Para Todos, ou pela via da “desestatização”, como ocorre com o incentivo às parcerias público-privada: as fundações privadas no interior das universidades e Cefets, a lei de inovação tecnológica.
Atualmente, vários ativistas honestos – digamos, milhares de Edson Luís – estão lutando contra o Programa de Apoio a Planos de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais – o REUNI – do governo Lula. Estamos organizando, em todo o país, uma jornada de luta em memória ao camarada Edson Luís e à sua luta, mas também porque a luta por educação pública e de qualidade, passados 40 anos, permanece atual.
Em maio, prosseguiremos nossa luta promovendo em todas as universidades federais do país, juntamente com servidores técnico-administrativos e professores, um plebiscito sobre a implantação do REUNI, onde diremos um sonoro NÃO ao governo Lula.
Edson Luís, que tombou por causa do regime autoritário e repressivo, não estaria satisfeito se hoje, aos 58 anos de idade, conhecesse um país governado por ex-dirigentes da luta contra a ditadura militar, mas que hoje se tornaram dirigentes do governo da ditadura do capital. Que, em última instância, governaram e governam para o mesmo sistema sócio-econômico: o capitalismo. Se Edson Luís estivesse vivo, talvez não ligasse para política. Mas provavelmente seria ele um trabalhador que veria em nosso país uma realidade de desemprego crônico, uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro, um Brasil sem reforma agrária, a falácia do fim da dívida externa, banqueiros lucrando bilhões à custa de um salário mínimo de fome, reformas da previdência e trabalhista sendo gestadas contra os trabalhadores.
Enfim, acreditamos que se o jovem Edson Luís estivesse vivo e com o mesmo ideal de justiça e coragem para lutar, com certeza, estaria do nosso lado. Do lado dos que seguem lutando ao lado do povo, junto dos trabalhadores desse país.