26 de março de 2008

40 anos sem o estudante Edson Luís

Em 28 de março de 1968, Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista, então com 18 anos, tomba no restaurante Calabouço, freqüentado por jovens estudantes pobres de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro.



Naquela noite de 28 de março, Edson Luís, juntamente com outros estudantes, organizava um protesto contra as más condições de higiene e estruturação do restaurante Calabouço, cujas obras de reforma haviam sido paralisadas. Na ocasião, a tropa de choque da PM do estado da Guanabara invadiu o local e agiu conforme noticiou o jornal carioca “Correio da Manhã” em 29/3/1968:



“Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fez à bala. Há um estudante morto, um outro em estado gravíssimo. (...) Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa toda discussão sobre se os estudantes tinham ou não razão - e tinham. (...) Atirando contra jovens desarmados, atirando a esmo, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua ação, ontem”.



Essa longa citação fala por si mesma e dispensa qualquer acréscimo. A partir daí, como revolta organizada e ao mesmo tempo espontânea, o povo carioca e brasileiro saíram as ruas para enfrentar o regime autoritário. Na mesma ocasião do assassinato de Edson Luís, um porteiro e um funcionário de escritório foram mortos por balas perdidas.



O corpo do jovem Edson Luiz, morto, foi levado pelos seus companheiros e pelo povo para ser velado na Assembléia legislativa. A missa de sétimo dia se transformou em um ato político contra a ditadura militar. Em 26 de junho de 1968, ocorreu a Marcha dos Cem Mil, a maior manifestação contra a Ditadura Militar até aquela data, como decorrência dos protestos contra a situação dos estudantes e como repúdio ao assassinato de Edson Luís.



Esse era o movimento estudantil brasileiro há 40 anos. Aliado ao povo explorado e oprimido, ainda que fosse uma aliança intuitiva e sem a união estreita com a classe operária, mas o instituto de classe era uma marca sua indiscutivelmente.


Foto: Henrique José

Hoje, se o camarada Edson Luís estive vivo veria, infelizmente, um movimento estudantil dividido e traído pelas direções governistas. Queremos destacar que a divisão do movimento estudantil é empreendida justamente por aqueles que reivindicam a representatividade histórica da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Essa divisão se dá porque a UNE e a UBES dirigem um setor do movimento estudantil para o campo de sustentação e apoio do governo Lula. Este mesmo governo que aplica políticas de corte de verbas da educação para pagar a dívida pública, arrocha o salário dos trabalhadores do setor, impõe uma reforma universitária para adequar o ensino superior aos interesses do capitalismo brasileiro e do imperialismo em geral. Como se não bastasse. ainda aumenta o ritmo de privatização do ensino – seja pela via da fomentação do ensino pago, através do Programa Universidade Para Todos, ou pela via da “desestatização”, como ocorre com o incentivo às parcerias público-privada: as fundações privadas no interior das universidades e Cefets, a lei de inovação tecnológica.



Atualmente, vários ativistas honestos – digamos, milhares de Edson Luís – estão lutando contra o Programa de Apoio a Planos de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais – o REUNI – do governo Lula. Estamos organizando, em todo o país, uma jornada de luta em memória ao camarada Edson Luís e à sua luta, mas também porque a luta por educação pública e de qualidade, passados 40 anos, permanece atual.



Em maio, prosseguiremos nossa luta promovendo em todas as universidades federais do país, juntamente com servidores técnico-administrativos e professores, um plebiscito sobre a implantação do REUNI, onde diremos um sonoro NÃO ao governo Lula.



Edson Luís, que tombou por causa do regime autoritário e repressivo, não estaria satisfeito se hoje, aos 58 anos de idade, conhecesse um país governado por ex-dirigentes da luta contra a ditadura militar, mas que hoje se tornaram dirigentes do governo da ditadura do capital. Que, em última instância, governaram e governam para o mesmo sistema sócio-econômico: o capitalismo. Se Edson Luís estivesse vivo, talvez não ligasse para política. Mas provavelmente seria ele um trabalhador que veria em nosso país uma realidade de desemprego crônico, uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro, um Brasil sem reforma agrária, a falácia do fim da dívida externa, banqueiros lucrando bilhões à custa de um salário mínimo de fome, reformas da previdência e trabalhista sendo gestadas contra os trabalhadores.



Enfim, acreditamos que se o jovem Edson Luís estivesse vivo e com o mesmo ideal de justiça e coragem para lutar, com certeza, estaria do nosso lado. Do lado dos que seguem lutando ao lado do povo, junto dos trabalhadores desse país.

14 de março de 2008

Vou me formar em história e agora?
Esse artigo foi publicado na Revista Profissionais & Negócios (Natal-RN), edição número 4, fevereiro de 2008.

A história é uma ciência inseparável da atividade humana em sociedade. Em pleno século 21, não é possível imaginar uma comunidade, um povo, um Estado, uma nação soberana sem um mínimo acervo de conhecimento sobre sua própria história.

À primeira vista, a História é apenas mais uma disciplina escolar, enfadonha para uns e apaixonante para outros. É claro que a grande maioria dos historiadores profissionais está atualmente em sala de aula. Mas ser historiador é muito mais do que isso. Em primeiro lugar, a sua formação é algo fascinante para qualquer um, independente da idade. Estudar as origens da humanidade, tomar parte de alguns problemas que nossos ancestrais enfrentaram na longa caminhada evolutiva e, por fim, conhecer as diversas organizações sociais desenvolvidas pelo homem moderno nos apresenta uma face sedutora dessa ciência. Como diria meu historiador preferido, o alemão Karl H. Marx (1818-1883): “tudo o que é humano me interessa”. Dito isso, o dilema sobre o que fazer depois de formado em História pode ser facilmente resolvido.
O graduado em História tem que responder a inúmeros desafios contemporâneos. Precisa produzir conhecimento histórico e ao mesmo tempo ter interesse e vocação para “ensinar” esse conhecimento. E é dessa maneira que a profissão de historiador se apresenta. Principalmente hoje, porque me parece que finalmente a nossa profissão não sofre mais da dicotomia professor versus pesquisador. Um historiador profissional deve ser considerado aquele que tem todas as competências tanto para lecionar quanto para pesquisar e escrever sobre história.

Encarando a profissão de historiador desde este ponto de vista, as áreas de atuação profissional se tornam múltiplas. Temos espaço no serviço público, área que nos últimos anos tem passado por um boom na oferta de vagas, e onde podemos desenvolver pesquisa, trabalharmos com arquivos públicos, produzirmos trabalhos historiográficos de interesse público; para quem gosta de trabalho ao ar livre, longe dos gabinetes acadêmicos ou das repartições, existe a possibilidade de trabalho com a arqueologia, que busca através de escavações em sítios arqueológicos encontrar indícios do nosso passado remoto; além, é claro, do espaço da sala de aula, para os que gostam de ter contato com a discussão e a reflexão cotidiana com alunos do ensino básico ou nas universidades com os futuros historiadores.

Assim é o universo do historiador profissional. Cheio de desafios que exigem respostas para entendermos bem aonde chegamos neste mundo contemporâneo. E de onde tiraremos do passado, algumas conclusões que sirvam de norte para os problemas e inquietações do presente.

10 de março de 2008

Em 8 de março, assim como em todos os dias, mulheres e homens trabalhadores devemos lutar.

Estamos a 151 anos do massacre imposto às 129 operárias téxteis de Nova Iorque, EUA, em 8 de março de 1857. Neste século e meio de lutas da classe operária mundial muitas vitórias táticas e derrotas estratégicas marcaram essa caminhada para as mulheres da nossa classe. Algumas concessões - advindas do período de ascensão do capitalismo (1860-1890) - foram dadas às mulheres e homens de nossa classe, vale ressaltar que ao custo de muitas lutas encarniçadas. Jornada de oito horas, proibição do trabalho infantil, direito ao voto, acesso a educação, salários menos desiguais (no século XIX as mulheres chegavam a receber 1/3 do salário dos homens, hoje as mulheres recebem cerca de 70% do que o homem).

Evidentemente, falta muito para as mulheres conquistarem tanto do ponto de vista econômico e social, quanto do ponto vista humano e moral. Além da exploração comum a toda classe trabalhadora, as mulheres sofrem o que chamamos opressão. Opressão é quando um gênero, uma raça, uma nacionalidade, uma orientação sexual, um grupo social ou religioso é colocado em posição de submissão e dessa posição se vale o opressor para ampliar a exploração. As mulheres, portanto, no capitalismo, são exploradas enquanto trabalhadoras e oprimidas enquanto mulheres.

As mulheres burguesas são oprimidas pelos homens burgueses, mas não são exploradas, ou seja, sua relação social diante da propriedade é a mesma. Por isso, os objetivos históricos das mulheres burguesas e das mulheres trabalhadoras são igualmente antagônicos e irreconciliáveis.

As mulheres da classe trabalhadora sofrem cotidianamente com o machismo empregado no trabalho. Sofrem também com as "triplas jornadas", que começam no local de trabalho e acabam em casa ou vice e versa. Outras sofrem com o super-alienante trabalho doméstico não pago, extremamente desvalorizado por seus companheiros e pela sociedade em geral. Além da opressão vinda diretamente do sistema capitalista (empreendida pelo patrão - através de salários menores do que o dos homens, assédio sexual, etc), existe ainda a opressão vinda dos seus próprios companheiros, filhos, pais, colegas homens de trabalho (uma expressão da ideologia burguesa dentro da classe trabalhadora).

Nem quando pretensos governos de frente-popular chegam ao poder, como o de Lula/PT e PCdoB, a situação da mulher muda para melhor. Como esses governos são burgueses disfarçados de operários (a história dos 5 anos de governo Lula já demonstrou isso) a situação da mulher trabalhadora só piora. Muitas "reformas" neoliberais que os governos anteriores não conseguiram implementar, o governo Lula vem tentando implementar como a reforma da previdência que aumenta o tempo de trabalho da mulher, desconsiderando que esta tem uma "tripla jornada" de trabalho. Um governo que cria Secretrarias Nacionais (com status de Ministério) sem verbas e sem atuação prática na vida das mulheres; cria também leis, como a "Maria da Penha", muito bonita para sair na foto, mas que na realidade não responde e nem dá conta de conter todas as barbaridades cometidas contra a mulher pelo país a fora.

Como se não bastasse, ainda há, como é peculiar ao capitalismo, a apropriação do próprio Dia Internacional da Mulher - que como bem lembramos no início desse artigo, tem a ver com uma luta operária contra a exploração e opressão. Muitos governos, empresas e redes comerciais transformam este dia em um valioso "produto" para ser vendido como bem lhe interessar. Seja com propagandas, homenagens, flores, "liquidações" ou outras ilusões.

Para se livrar de todos esses males, as mulheres trabalhadoras em unidade com os homens desta mesma classe precisamos lutar todos os dias contra os governos que representam a burguesia, o capitalismo e o imperialismo. Precisamos somar as vitórias táticas ditas acima com a vitória estratégica, que é a vitória de uma revolução operária e socialista que destrua o capitalismo e imperialismo e comece a constuir uma nova sociadade: a socialista. E que a partir da construção dessa nova sociedade, trabalhadores e trabalhadoras possam ir destruindo os restos da opressão deixadas pela velha sociedade e, assim, a mulher possa conquistar a sua verdadeira emancipação, algo tão sonhado e que - desde a existência das sociedades com diferença de classe - jamais foi conhecida.

3 de março de 2008

Que dizer sobre os acontecimentos de sábado e sobre a possibilidade de enfretamento militar entre Colômbia, Venezuela e Equador?
Desde Sábado, com o anúncio do assassinato de Carlos Reyes, segundo comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC, prenuncia-se um forte tensionamento entre Venezuela, Colômbia e Equador. A grande imprensa internacional e brasileira têm feito uma campanha imensa no sentido de caracterizar as FARC como um bando de terroristas, financiados pelo narcotráfico internacional. A recente campanha teve início com a “Operação Emanuel” que visava libertar ex-parlamentares colombianas seqüestradas pela guerrilha havia 6 anos. Uma das seqüestradas, Clara Rojas, inclusive, tem um filho com um dos guerrilheiros das FARC, a criança Emanuel.

Antes de tudo, preciso dizer que discordo da estratégia das FARC, a guerra de guerrilhas prolongada. Esta estratégia consiste em formar um partido-exercito altamente disciplinado e centralizado pelo seu Comando. Não há democracia interna nas FARC, portanto a base dos guerrilheiros não opinam na linha geral do partido-exército. Isso implica que essa organização não é capaz de dirigir conseqüentemente uma revolução socialista, com a classe operária colombiana a frente do processo. Nesse sentido, tenho total desacordo com a estratégia, a política e o método de luta implementado pelas FARC. Sem embargo, diante do crescente endurecimento do regime reacionário de Uribe e da possibilidade de choque militar, todos os lutadores e revolucionários devem optar por um campo militar. A nossa opção, desde já, é clara. Estamos no campo militar das FARC, contra Uribe e contra o imperialismo norte-americano (financiador e instrutor do Plano Colômbia), mas com total independência da direção guerrilheira e apoiando a construção de uma direção socialista, revolucionária e que empregue a democracia operária como método de atuação.

Com os acontecimentos de Sábado, a invasão do território equatoriano para desmontar e assassinar Carlos Reyes e mais dezesseis guerrilheiros, mais uma vez a esquerda revolucionária latino americana e mundial precisam dar uma resposta ao posicionamento dos governos burgueses de Chávez e Correa. Em primeiro lugar, quero reafirmar a caracterização de que tanto Chávez como Correa dirigem governos e regimes burgueses em seus países. Que pertencem a Estados burgueses que administram a forma como a burguesia explora, oprime e reprime as classes trabalhadoras venezuelana e equatoriana. Por isso, neste momento, mais uma vez, os trabalhadores latino americanos não devem depositar a menor confiança de que tanto Chávez ou Correa irão ser conseqüentes em um possível enfrentamento militar entre Colômbia e seus países. Sem embargo, diante de um possível enfrentamento – do qual ainda não estamos certos se de fato ocorrerá –, os trabalhadores deverão organizar suas próprias milícias e destacamentos armados, e ainda exigir que Chávez e Correa distribuam armas entre os trabalhadores.

Sendo assim, a esquerda revolucionária deve estar no mesmo campo militar de Chavéz e Correa, mas com total independência política desses governos burgueses, e construir, ao lado dos trabalhadores venezuelanos e equatorianos, uma alternativa de direção ao castro-chavismo (corrente internacional, da qual Rafael Correa e Hugo Chavéz são destaques) que seja operária, socialista e internacionalista. Uma direção oposta ao que representam Correa e Chavéz: dois governos burgueses e que se apóiam na principal instituição de um Estado burguês, as Forças Armadas.

De seu lado, o governo Lula já aparenta cumprir o seu papel na região: sub-metrópole da América do Sul, com laços semi-coloniais com os Estados Unidos. Seu chanceler, Celso Amorim, de pronto apresentou-se para negociar com os três governos e fazer valer a política geral do imperialismo norte-americano para a região: Plano Colômbia e destruição das FARC (para isso, Venezuela e Equador devem se manter fora dessa questão); Tratado de Livre Comércio – TLC – com o Equador, para manter o comércio desigual e privilegiado com este país e escoar os produtos e implantar as multinacionais norte-americanas, principalmente em tempos de crise; e seguir as relações comerciais que envolvem o petróleo venezuelano (hoje, a Venezuela é o terceiro maior abastecedor de petróleo dos Estados Unidos). Por tudo isso, fica evidente quais são as tarefas dos revolucionários, lutadores e de todos os trabalhadores do continente, antes, durante e depois de qualquer ameaça de enfretamento militar entre os três países. Romper com o TLC equatoriano. Derrubar o governo reacionário de Uribe e o Plano Colômbia, ao passo de não entregar o poder às FARC e sim criar uma nova direção para a revolução colombiana. Desabastecer os Estados Unidos de petróleo venezuelano e estatizar todas as companhias estrangeiras sem indenização e sob o controle dos trabalhadores. Impedir que o Brasil se meta no possível conflito, seja belicamente ou diplomaticamente, uma vez que, como tem demonstrado a ocupação militar do Haiti, o governo Lula cumpre um papel auxiliar dos interesses norte-americanos na região.