3 de março de 2008

Que dizer sobre os acontecimentos de sábado e sobre a possibilidade de enfretamento militar entre Colômbia, Venezuela e Equador?
Desde Sábado, com o anúncio do assassinato de Carlos Reyes, segundo comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC, prenuncia-se um forte tensionamento entre Venezuela, Colômbia e Equador. A grande imprensa internacional e brasileira têm feito uma campanha imensa no sentido de caracterizar as FARC como um bando de terroristas, financiados pelo narcotráfico internacional. A recente campanha teve início com a “Operação Emanuel” que visava libertar ex-parlamentares colombianas seqüestradas pela guerrilha havia 6 anos. Uma das seqüestradas, Clara Rojas, inclusive, tem um filho com um dos guerrilheiros das FARC, a criança Emanuel.

Antes de tudo, preciso dizer que discordo da estratégia das FARC, a guerra de guerrilhas prolongada. Esta estratégia consiste em formar um partido-exercito altamente disciplinado e centralizado pelo seu Comando. Não há democracia interna nas FARC, portanto a base dos guerrilheiros não opinam na linha geral do partido-exército. Isso implica que essa organização não é capaz de dirigir conseqüentemente uma revolução socialista, com a classe operária colombiana a frente do processo. Nesse sentido, tenho total desacordo com a estratégia, a política e o método de luta implementado pelas FARC. Sem embargo, diante do crescente endurecimento do regime reacionário de Uribe e da possibilidade de choque militar, todos os lutadores e revolucionários devem optar por um campo militar. A nossa opção, desde já, é clara. Estamos no campo militar das FARC, contra Uribe e contra o imperialismo norte-americano (financiador e instrutor do Plano Colômbia), mas com total independência da direção guerrilheira e apoiando a construção de uma direção socialista, revolucionária e que empregue a democracia operária como método de atuação.

Com os acontecimentos de Sábado, a invasão do território equatoriano para desmontar e assassinar Carlos Reyes e mais dezesseis guerrilheiros, mais uma vez a esquerda revolucionária latino americana e mundial precisam dar uma resposta ao posicionamento dos governos burgueses de Chávez e Correa. Em primeiro lugar, quero reafirmar a caracterização de que tanto Chávez como Correa dirigem governos e regimes burgueses em seus países. Que pertencem a Estados burgueses que administram a forma como a burguesia explora, oprime e reprime as classes trabalhadoras venezuelana e equatoriana. Por isso, neste momento, mais uma vez, os trabalhadores latino americanos não devem depositar a menor confiança de que tanto Chávez ou Correa irão ser conseqüentes em um possível enfrentamento militar entre Colômbia e seus países. Sem embargo, diante de um possível enfrentamento – do qual ainda não estamos certos se de fato ocorrerá –, os trabalhadores deverão organizar suas próprias milícias e destacamentos armados, e ainda exigir que Chávez e Correa distribuam armas entre os trabalhadores.

Sendo assim, a esquerda revolucionária deve estar no mesmo campo militar de Chavéz e Correa, mas com total independência política desses governos burgueses, e construir, ao lado dos trabalhadores venezuelanos e equatorianos, uma alternativa de direção ao castro-chavismo (corrente internacional, da qual Rafael Correa e Hugo Chavéz são destaques) que seja operária, socialista e internacionalista. Uma direção oposta ao que representam Correa e Chavéz: dois governos burgueses e que se apóiam na principal instituição de um Estado burguês, as Forças Armadas.

De seu lado, o governo Lula já aparenta cumprir o seu papel na região: sub-metrópole da América do Sul, com laços semi-coloniais com os Estados Unidos. Seu chanceler, Celso Amorim, de pronto apresentou-se para negociar com os três governos e fazer valer a política geral do imperialismo norte-americano para a região: Plano Colômbia e destruição das FARC (para isso, Venezuela e Equador devem se manter fora dessa questão); Tratado de Livre Comércio – TLC – com o Equador, para manter o comércio desigual e privilegiado com este país e escoar os produtos e implantar as multinacionais norte-americanas, principalmente em tempos de crise; e seguir as relações comerciais que envolvem o petróleo venezuelano (hoje, a Venezuela é o terceiro maior abastecedor de petróleo dos Estados Unidos). Por tudo isso, fica evidente quais são as tarefas dos revolucionários, lutadores e de todos os trabalhadores do continente, antes, durante e depois de qualquer ameaça de enfretamento militar entre os três países. Romper com o TLC equatoriano. Derrubar o governo reacionário de Uribe e o Plano Colômbia, ao passo de não entregar o poder às FARC e sim criar uma nova direção para a revolução colombiana. Desabastecer os Estados Unidos de petróleo venezuelano e estatizar todas as companhias estrangeiras sem indenização e sob o controle dos trabalhadores. Impedir que o Brasil se meta no possível conflito, seja belicamente ou diplomaticamente, uma vez que, como tem demonstrado a ocupação militar do Haiti, o governo Lula cumpre um papel auxiliar dos interesses norte-americanos na região.

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