28 de julho de 2008

Crônica de uma saída soturna (I)

Só um vagabundo como eu, poderia se achar ali, nas ruas do centro de Natal, sozinho, sob o efeito de um trago do maldito cigarro que voltou a assombrar as minhas noites lúgubres e vazias. Sim, naquele exato momento, eu seguia vagando pelos becos, a procura de um bar legal pra mim dançar, ouvir alguma música alegre, beber algumas cervejas amargas e geladas. Como as noites frias que têm habitado essa cidade chata e sem graça. Tudo isso para romper com a maldita melancolia dos últimos meses. Era inverno de 2008. Andava apressado, olhos arregalados, mãos trêmulas, sabia que tudo isso significava correr, mais uma vez, um risco danado de ser assaltado por um vagabundo pior do que eu.

Me arrastei mais uma vez até o Bardallo´s, quase vazio, sombrio, música baixinha, o vai-e-vem de Ricardo, o garçom, que entre um trago e outro no cigarro atende a todos os tipos que aparecem naquele bar. Assim que me sentei e pedi uma cerveja, Ricardo veio até mim com um panfleto de uma festinha junina que iria ocorrer dois dias depois. A atração seria uma banda cheia de mulheres, cheia de rosas e cheia de pedras: Rosa de pedra.

Sentado logo na entrada do bar, avisto de repente um tipo maltrapilho, que se arrasta para dentro do ambiente sob a meia-luz, até se aproximar de mim. Ao me reconhecer, senta-se ao meu lado. Cinco minutos depois, havia uma pilha de livros velhos de poesia, a mais idiota que já li: umas ufanistas demais e outras concretistas demais – podia-se sentir a poeira do reboco dos textos velhos e mal cuidados. Logo me surpreendi com os cigarros que Catarro dispunha – dois maços de Cumberland: “um gringo espanhol que encontrei me cedeu esses cigarros. Ele é louco! Você precisa sentir a sensação que ele dá! Mas tome cuidado! Você pode entrar em transe, você não está acostumado, acho que você vai pirar, afaste-se dele! Sinta só o cheirinho dele, o gosto é diferente de tudo que conheci meu amigo! Veja só o que tenho aqui: duas telas! Irei expô-las um dia no Recife, minha doce terra, onde vivi toda a minha vida, minha juventude, onde curti sem parar! Agora olhe pra mim! Estou perdido, onze anos em Natal, veja só no que me tornei! Um perdedor!” Catarro não parava de falar, sua cerveja estava borbulhando de raiva, como se quisesse reclamar do desperdício de ter sido produzida, transportada, resfriada e servida para um tagarela que estava mais preocupado em reclamar da vida do que curtir a melancolia que qualquer trago de cerveja pode proporcionar. “Eu ainda me caso com Ricardo, olha só pra ele, que cara-de-pau, me trouxe esse panfleto, com esse convite idiota que me diz que tenho de pagar cinco reais para poder entrar nessa festa, que absurdo! Me diga, meu amigo, eles irão servir bebida de graça para todos? Eu pagarei cinco reais e poderei beber de graça a noite inteira?

Eu tinha de cair fora dali. Desaparecemos juntos, eu e Catarro. Caminhamos pelas ruas do centro, eu e aquele pintor esquisito. Que além do mais, parecia estar muito carente e, ao mesmo tempo, pronto para qualquer tipo de malandragem. Eu tinha certeza que tinha de acabar com aquilo tudo o quanto antes, e me livrar daquela maldita companhia. Chegamos juntos a Pinacoteca estadual e rapidamente nos despimos de toda cerimônia e invadimos aquele recinto aristocrático, com ares jocosos e olhares lúgubres. Um bando de burgueses mal-satisfeitos! E foi nesse dilema que eu e meu triste companheiro nos separamos. Ele entrou e eu saí.

2 comentários:

Anita disse...

Amo ate hoje suas palavras,seu pensar me leva a um novo tipo de orgasmo,nunca antes sentido, suas linhas me tocan de um jeito que so voce meu anjinho,saudade de entrar aqui e ler voce, saudade ate do gosto de seu suor.

Anita disse...

ahh esqueci de mencionar... quero me ver en seus textos, gosto de quando falas de mim, gosto de mi ler en seus textos.