22 de dezembro de 2008

Trabalho Noturno - parte II

Para quem não leu a primeira parte aí vai seu endereço:
http://bsadan.blogspot.com/2008/12/trabalho-noturno-devagar-seu-estpido.html

Passados vinte ou trinta minutos, não se ouvia um barulho sequer de dentro do velho bar. Comecei a especular sobre o que estaria dentro daquele velho freezer... Mas é claro! Só poderia ser um cadáver! No entanto, só essa certeza não bastava. Precisava, ainda, de provas, testemunhas... ótima hora para chamar a polícia e presenciar um flagrante de verdade e, sendo eu uma testemunha honesta, não haveria de permitir qualquer tipo de acordo nem muito menos deixar passar nenhum suborno...

Saquei o celular, digitei 190 e prontamente uma voz metálica assumiu o comando da conversa: “(...) posso ajudar?”, ao que respondi: “deixa pra lá...” e desliguei. Justo nesse momento a porta do boteco abriu-se de vez, e o jovem com o rosto enrubescido e os olhos em chamas saltou do bar quase que aos ponta pés contra todos os cestos de lixo do beco. Continha um grito que sufocava-o mais que tudo. O terceiro suspeito saíra das sobras e finalmente apresentava um rosto esquálido e embranquecido, tão assustado e nervoso quanto qualquer outra coisa já vista. Chegava a ser um nervosismo contagioso. O meu abrupto movimento quase denunciou a minha presença à cena do crime. O fantasma das sombras rastejou e saltitou até cair sobre as costas do jovem dando-lhe um baque tão poderoso que quase arruinou suas expectativas de voltar a andar outra vez. Só depois de um minuto em que os dois estavam prostrados no chão um sobre o outro é que surge uma primeira palavra balbuciada: “Você é louco?! Não sabes o que acabastes de fazer?”. Certamente quem disse isso foi o velho abutre que com uma certa coerência no olhar chamava a atenção do jovem intempestivo. A minha curiosidade vasculhava mentalmente a zona interior do bar, em busca de algum sinal do velho que fora até então o protagonista de todo aquele sórdido episódio. Uma noite que jamais deveria ter se passado em minha vida.

E pra acabar de vez comigo ouço o discurso mais desesperado e realmente é um desabafo do jovem aprendiz: “Meu pai, aquele que agora já possui frias carnes e repousa sobre uma poça de sangue arrancada violentamente das suas tripas por mim, nesse exato momento, se ainda estivesse vivo, deveria ser considerado por toda a humanidade como o verme mais desprezível que ousou pousar os pés sobre esta terra. Tu bem sabes que é assim titio. Pois teu irmão nunca poupou nenhuma alma em sua vida, inclusive as mais ingênuas, as pequenas Lucile e Flavinha, minhas pobres irmãzinhas, a quem tanto amei e que hoje, graças a estupidez e a brutalidade daquele cadáver podre, não estão mais junto a mim. Além disso, tendo minha mãe, e as outras duas esposas deste monstro ainda insepulcro, sofrido igual sorte, ou seja, sua total ruína e loucura. Tudo justifica a liquidação que dei a vida de um canalha podre e vil como era teu irmão! Olhe para mim! Veja no que me tornei... por que será que não consigo mais trabalho honesto? Como antes? É... quando eu tinha a Camila e pretendia ter filhos e talvez até cair fora dessa cidade, desse beco e dessa horda de fracassados e cafajestes... esses do tipo do teu irmão e seu também. Mas veja onde me meti: sou um ex-presidiário, um fugitivo para ser mais sincero, me transformei num procurado porque caí numa armadilha traiçoeira do meu pai. Certa vez ele me propôs um trabalho, disse-me que seria a minha grande chance de vencer na vida e finalmente casar com minha querida Camila. Fiquei entorpecido por vários dias só de imaginar tal possibilidade.”

A essa altura, eu estava perplexo com tais revelações mas ao mesmo tempo satisfeito porque todas as minhas expectativas estavam sendo cumpridas... Tratavasse o velho de mais um mal-feitor, cujo filho acabara de dar cabo a sua vida... Apenas esse elemento surpresa me incomodara profundamente... oh, claro... porque eu deveria ter percebido que tanta cumplicidade assim, só poderia se tratar mesmo de um drama familiar... e, no entanto, para mim só ficou claro após o longo e convicto discurso, daquele que não alimentava o menor remorso por ter cometido o mais violento e fulminante parricídio que tivera eu ouvido falar até aquela presente noite. Mas o garoto tinha muito mais a falar, e agora estava eu a me associar e a me solidarizar tanto com aquele jovem que quase o fiz publicamente ali mesmo, me revelando aos dois atores da cena mais emocionante que pude presenciar nas ruas de Natal. Porém resolvi ficar quieto e ouvir o que mais o garoto tinha a dizer: “...Mas veja só titio, o patife que você insistia chamar de teu irmão, preparou uma armadilha contra mim e me fez cair nela, você bem sabe disso... e onde eu fui parar? Na cadeia! Fui incriminado por estar diante do infeliz que ele matou, afinal ele precisaria manter-se livre para seus negócios sujos. Mas quem ele escolheu pra bode expiatório? Eu! E tu achas meu tio que mais uma vez eu iria esperar a mesma sorte. Iria ficar a guarnecer mais um cadáver posto em um freezer há mais de dois dias?! Pra limpar a barra do meu pai?! Tenhas a Santa paciência. Eu não sou louco nem muito menos masoquista. Resolvi por mim mesmo que era chegada a hora de dar fim àquele patife. Pois bem, agora aqui estou eu todo ensangüentado, mas de alma lavada. Porque vinguei de uma vez por todas aqueles que se arruinaram nas mãos deste maníaco.” “Chega!”, interrompeu com um ataque de desespero o tio do jovem trabalhador, “uma coisa é certa, tu tens razão do julgamento que fazes de mim e de teu pai. Realmente somos figuras desprezíveis e seria bom mesmo que no mundo não existem tantos assim como nós, porque a nossa filosofia é causar a dor, o desespero e a morte nas pessoas. Mas isso não é tudo! Uma vez que já estamos nesse mundo mesmo, às vezes alguns ratos como nós alcançamos um estágio de reflexão. Essa reflexão pode nos elevar a outros estágios, esses superiores... Não temas, não quero te enganar mais uma vez! Apenas quero eu te abrir os olhos e lamentar o primeiro crime que cometestes... pois é assim, já que teu pai, apesar de ainda manter sua grosseria, não era mais um bandido... apesar de que para o mundo a escória não tem jeito... Oras! Deixemos isso agora de lado, venha aqui... venha até o cadáver do teu pai... tu achas que dentro do freezer encontra-se um infeliz morto?! Estás enganado!” Meu coração saltitou, sem entender mais nada. Quando o jovem e o tio finalmente abriram o baú refrigerado nada mais encontraram do que cerca de oitenta quilos de carnes, de todos os tipos... um amálgama avermelhado e sanguinolento.

O filho matara o pai como forma de vingança contra os erros do passado do seu pai, e também como uma espécie de defesa preventiva diante mais um suposto crime iminente, mas que não se cumpriu. E aí reside a maior razão de seu instântaneo arrependimento. Justamente por se tratar de uma fantasia, cujo tio após vinte minutos de explicação desvendara ao sobrinho recém fugido da cadeia estadual que nos últimos cinco anos, ele e seu pai haviam se recuperado aos poucos e que o submundo não era mais um lugar onde os achariam. A razão de todo o sigilo da operação, o transporte de carnes na calada da noite tinha a ver com o novo negócio ao qual os irmãos iriam se meter em sociedade. Tanto o pai quanto o tio do jovem ex-presidiário decerto ainda não tinham todas as contas acertadas com seus credores e principalemente com a vigilância sanitária, acreditavam poder conseguir isso mais adiante quando o negócio finalmente se consolidasse. Ao ouvir todo esse relato o garoto não esboçou nenhuma reação. Deu com os ombros para o tio, virou as costas para o cadáver de seu pai e alertou que ao amanhecer entregar-se-ia a primeira DP.

Só aí pus-me a refletir: “quanta sorte a vida destina a alguns miseráveis? Que por mais que tentem consertar as besteiras dos outros, acabam afundando-se em suas próprias besteiras. Estas maiores ainda. É aí que eu compreendo de uma vez por todas: não existe boa sorte. Existe uma sorte que não possui um caráter (boa ou má). O que existe sim é o estar pronto para cometer um ato de ousadia, seja um acerto de contas, uma conquista, uma aposta, uma competição. Ter sorte é ter ousadia. É arriscar. O jovem Cássio arriscou fazer justiça... Agora será a justiça que fará bom proveito de mais um pobre espírito desgraçado.”

7 de dezembro de 2008

Por dois anos

Hoje, eu tenho mais uma oportunidade de me dirigir ao passado. Ou melhor, mais uma oportunidade de me dirigir a um grande erro do passado. Como diria um grande amigo meu: “poesia é muito mais do que um bom gingado de métrica e rima, ‘es decir’, é ser generoso, é dar voz quando a alma tem algo a dizer”. Se assim é com a poesia, de igual modo é quando se deseja acertar com o passado, com um amor do passado. Quero me dirigir a esse amor perdido. Sei que é impossível reatá-lo, reanimá-lo, tê-lo de volta junto a mim. Faço isso, então, por generosidade com meu coração. E assim procedendo, talvez esteja agindo com um despropositado egoísmo, pela centésima vez na vida. Mas isso não me importa!

Tu, quem conheci acidentalmente e que, também de maneira acidental, me apaixonei. Agora, fico muito aborrecido e desconfiado com esses tipos de acidentes, porque simplesmente creio que eles antecipam demais os encontros. Encontros que poderiam ter sido deixados à sorte do futuro, e que por pura inquietude, desgraçadamente, são antecipados. E é essa antecipação que por vezes arremata um coração desguarnecido de generosidade e bom senso, para não dizer que este coração esteja também desprevenido e imaturo. Oh! se fosse hoje e não há dois anos, será que este coração cumpriria as expectativas que ora roga? Certamente que não! Talvez fosse preciso pelo menos mais uns cinco ou dez anos. Mas novamente vos digo, que não é objetivo deste julgar-me ou muito menos defender-me. Como disse no início, quero apenas comunicar-me. De coração para coração. E isso só será completado se tu, e mais ninguém, um dia ler-me. Seja qual for seu interesse ou sua motivação.

Finalmente, chegou a hora de refletir, de expressar-me. Porque antes meu coração só dera lugar ao silêncio. E o silêncio corroe os nervos e amargura a alma. E eu que sempre fui apaixonado pela leveza das relações. Por espíritos delicados. Mas, sobretudo, pelas mulheres que alimentam essa delicadeza com suas personalidades fortes, e alimentam essa delicadeza mais ainda com sua devoção a experimentação e a aventura. Detesto, pois, as conservadoras e tenho dó das mulheres frágeis. E tu tinhas as minhas qualidades preferidas e era, para mim, despida de defeitos. Pudera, tu soubestes cuidar e te dedicar ao nosso tenro namoro, mas sem jamais se tornar uma mulher deprimente ou mal-amada. Mesmo que fosse mal amada. Nosso namoro morrera todos os dias por inanição. Mesmo assim estava lá tu a alimentá-lo. Tu resistias, como uma brava combatente, iluminada pela memória das grandes mulheres. Mas isso tu já sabes.

O que não sabes é o que passara em meu espírito. Nutria ele por ti grande afeição e muito amor, mas não pôde ou não quis dedicar-se a ti. Quantos alertas precisastes me enviar? Quantos ultimatos para uma relação falida teriam sido necessários para que pudéssemos reverter tal tragédia. Não proponho compartilhar uma culpa que é só minha. Pois, quem se esquivou fui eu, quem não telefonou fui eu, quem se escondeu fui eu, quem terminou fui eu. Também não quero pôr a culpa em nenhuma entidade exterior. Uma vez que já localizei a origem e a fonte do meu fracasso: a minha desprevenção, minha imaturidade e meu egoísmo.

O que resta, talvez não saibas, é me dirigir a ti e me prostrar resignado. Pois fui consciente do teu choro silencioso, oculto pelo consolo dos teus lençóis. E ainda assim, mesmo estando consciente e te amando, nada fiz. "Será que te amava mesmo?" perguntar-se-ão todos os espíritos nobres. E seria preciso muita perspicácia para notar que, no fundo, tratava-se apenas de mais um amante covarde, e nada mais. Diante do juízo da história, da paz necessária ao meu espírito e do mínimo de decência contigo e com a memória de teu amor, só me restou cumprir o que exige o meu coração e a minha moral: sinceramente, perdoe-me por tudo! Apesar de não ter parecido, te amei do inicio ao fim!

4 de dezembro de 2008

Trabalho noturno

– Devagar seu estúpido! – urrara o velho morador do Beco da lama – você sabe quanto custou esse maquinário quebrado? E esse freezer? Enfim, todo patrimônio que construí em quarenta e cinco anos miseráveis trabalhando na rua?!

E eu, infeliz, obrigado a testemunhar a discussão mais inepta de toda minha vida. Onze horas da noite. Domingo. Sequer uma viv’alma num raio de dez quarteirões... Sim, eu podia ter certeza disso, não fora preciso certificar-me... Estava claro... Meus ouvidos ultra-apurados e super-sensíveis não conseguira captar, até então, uma batida, uma pulsação humana sequer há mais de duas horas, através da minha vagação lúgubre noite a dentro, naquele maldito janeiro de 2007.

– Vamos logo seu verme! – prosseguira o velho, com sua breve eloqüência infame – temos que sumir daqui antes que sejamos vistos! Por que você acha que escolhi justamente a noite de um domingo para fazer isso?!

Até aquele instante, apenas eu os observava. E até então pensavam, o velho e seu infeliz empregado, estarem sozinhos. Talvez porque eu fiz questão de permanecer por vários minutos inaudível e invisível. Pensei: “que diabos eu vim fazer na rua a uma hora dessas? Agora, servirei de testemunha de alguma trapaça, ou mesmo me transformarei num arquivo, ou melhor, num provável arquivo-morto!”

– Eu tenho que ir mais rápido ou mais devagar? – questionou não sem razão o pobre vagabundo. Por três reais, o infeliz houvera oferecido seus serviços, talvez por quatro ou cinco horas de trabalho. – É isso mesmo seu velho! Como é que posso trabalhar desse jeito? – desabafou o desgraçado, com a cara mais exausta do mundo. O velho silenciou e, como resposta, tomou uma mão da carroça como se quisesse ditar o ritmo que agradara o seu recôndito e malogrado objetivo. E seguiu o seu caminho que ainda era desconhecido por todos os demais seres presentes àquela fétida esquina.

Mas eis que em mim surgiu uma macabra vontade de assistir aquela cena até o fim. Quisera eu, agora, conhecer o desfecho daquela picaretagem. “Tratar-se-ia aquilo apenas de mais um golpe, trapaça ou calote de um velho cansado? Cansado de sofrer ele mesmo toda sorte de calhordices? Ou sê-lo-ia um crime de verdade?”

– Isso aqui pesa pelo menos 80 quilos! – revelou o taciturno trabalhador. Nesse instante, olhei nos olhos do jovem que arrastava a carroça, que passava dos vinte anos, mas não atingia os vinte e cinco. Foi quando tive uma revelação sobre o seu caráter e sobre seu doce espírito: o jovem homem, viciado em trabalho árduo, diuturnamente se dispunha a fazer qualquer tipo de coisa – desde que lícita fosse tal empreitada –, mas no entanto, desta vez, havia em seu olhar um ar de suspeição. E esse estado havia também sobrepujado o meu espírito. A suspeita havia se tornado o signo daquela meia noite. Nada interessava mais a mim do que desvendar qual fosse o vil desígnio daquele velho chapado. Afinal, se eu me metera naquela situação o mais digno para alguém, cuja consciência ambicionara permanecer tranqüila, nas noites quentes da cidade em que pousar a cabeça e dormir é algo dificultoso por natureza, deveria ser conhecer o trajeto dos dois e a finalidade para a qual o velho desejara mover aquela carroça da maneira tão soturna e nada solene pelas ruas e becos da velha Cidade Alta.

Estando agora convicto da minha missão, fiz-me intruso daquela mente insana e irresponsável. Velha mente usurpadora da pueril ingenuidade daquele que convertia todo o seu ser para músculos auto-controláveis, que sob os auspícios de alguns relâmpagos de consciência exigia qualquer explicação que lhe parecesse momentaneamente conveniente. Ciente disso, o velho monstro simplesmente emudecia e não oportunizara sequer uma palavra ao ex-delinqüente que, agora, passara a ser seu novo e abjeto discípulo. Com o controle de um dos braços da carroça, o velho descia a Vigário Bartolomeu abaixo, onde na altura do bar de Nazaré vacilou e finalmente se arrastou até o bar de Nazi e se recostou exatamente onde um vagabundo chamado Rato fora assassinado anos atrás. Neste instante, fitei-os, a cerca de 30 metros, sob a marquise de um velho cortiço, donde meses antes meu atual companheiro de apartamento vivera, a fim de finalmente fechar um cerco imaginário e desbaratar de uma vez por todas aquela semi-quadrilha. Foi quando pude notar um repentino solavanco e um urro estridente emanado pelo velho, que arriou a carroça em frente a um velho boteco, cuja porta deveria estar fechada há anos. Em meio à escuridão e ao silêncio uma porta rangeu. Um terceiro suspeito surgiu. Talvez ele sim, fosse o verdadeiro mentor daquela operação suja.

– Depressa! Entrem! – murmurou uma sobra em meio às trevas. Em segundos a porta fechou-se, e os dois condutores da carroça, juntamente com ela, acharam-se dentro da velha espelunca abandonada. Eu aceitei tornar-me refém da minha própria curiosidade, a ponto de dedicar quase duas horas do meu tempo a fim de me intrometer nos assuntos alheios, em algo que definitivamente não me interessaria, enfim curvei-me diante de um fetiche, que passara a ser a tentativa frustrada de conhecer em primeira mão a execução de um crime ou o desfecho dele. Isso sem ter que ouvir dizer, e sim pela primeira vez ver com os meus próprios olhos.
(continua...)

29 de outubro de 2008

Tributo à beleza loira

Conheço, pessoalmente, apenas uma loira mais linda do que ela. Mas a questão não se trata apenas de ser uma loira mais ou menos linda do que a outra. Existe algo além disso. Não é apenas fetiche pelos seus cabelos. São os olhos! Esse par de janelas verdes, tão lindos como duas belas pedras de berilo verde. Estou apaixonado pelo seu silêncio; pelo fato de sequer saber seu nome, de onde veio e de saber quem realmente é essa garota... Até então, essa misteriosa garota, ocupa apenas uma vaga na minha fantasiosa mente juvenil.

No máximo, às vezes, como há pouco, ocupa, como um rastro de luz, as lentes da minha retina. Inclusive, ter passado por essa experiência, há cerca de segundos, em frente a minha mesa de lanchonete de escola politécnica, sob o sol, e com a luz deste espelhada em cada traço cacheado e fino de cabelo, me fez tropeçar em minha própria respiração.

28 de julho de 2008

Crônica de uma saída soturna (I)

Só um vagabundo como eu, poderia se achar ali, nas ruas do centro de Natal, sozinho, sob o efeito de um trago do maldito cigarro que voltou a assombrar as minhas noites lúgubres e vazias. Sim, naquele exato momento, eu seguia vagando pelos becos, a procura de um bar legal pra mim dançar, ouvir alguma música alegre, beber algumas cervejas amargas e geladas. Como as noites frias que têm habitado essa cidade chata e sem graça. Tudo isso para romper com a maldita melancolia dos últimos meses. Era inverno de 2008. Andava apressado, olhos arregalados, mãos trêmulas, sabia que tudo isso significava correr, mais uma vez, um risco danado de ser assaltado por um vagabundo pior do que eu.

Me arrastei mais uma vez até o Bardallo´s, quase vazio, sombrio, música baixinha, o vai-e-vem de Ricardo, o garçom, que entre um trago e outro no cigarro atende a todos os tipos que aparecem naquele bar. Assim que me sentei e pedi uma cerveja, Ricardo veio até mim com um panfleto de uma festinha junina que iria ocorrer dois dias depois. A atração seria uma banda cheia de mulheres, cheia de rosas e cheia de pedras: Rosa de pedra.

Sentado logo na entrada do bar, avisto de repente um tipo maltrapilho, que se arrasta para dentro do ambiente sob a meia-luz, até se aproximar de mim. Ao me reconhecer, senta-se ao meu lado. Cinco minutos depois, havia uma pilha de livros velhos de poesia, a mais idiota que já li: umas ufanistas demais e outras concretistas demais – podia-se sentir a poeira do reboco dos textos velhos e mal cuidados. Logo me surpreendi com os cigarros que Catarro dispunha – dois maços de Cumberland: “um gringo espanhol que encontrei me cedeu esses cigarros. Ele é louco! Você precisa sentir a sensação que ele dá! Mas tome cuidado! Você pode entrar em transe, você não está acostumado, acho que você vai pirar, afaste-se dele! Sinta só o cheirinho dele, o gosto é diferente de tudo que conheci meu amigo! Veja só o que tenho aqui: duas telas! Irei expô-las um dia no Recife, minha doce terra, onde vivi toda a minha vida, minha juventude, onde curti sem parar! Agora olhe pra mim! Estou perdido, onze anos em Natal, veja só no que me tornei! Um perdedor!” Catarro não parava de falar, sua cerveja estava borbulhando de raiva, como se quisesse reclamar do desperdício de ter sido produzida, transportada, resfriada e servida para um tagarela que estava mais preocupado em reclamar da vida do que curtir a melancolia que qualquer trago de cerveja pode proporcionar. “Eu ainda me caso com Ricardo, olha só pra ele, que cara-de-pau, me trouxe esse panfleto, com esse convite idiota que me diz que tenho de pagar cinco reais para poder entrar nessa festa, que absurdo! Me diga, meu amigo, eles irão servir bebida de graça para todos? Eu pagarei cinco reais e poderei beber de graça a noite inteira?

Eu tinha de cair fora dali. Desaparecemos juntos, eu e Catarro. Caminhamos pelas ruas do centro, eu e aquele pintor esquisito. Que além do mais, parecia estar muito carente e, ao mesmo tempo, pronto para qualquer tipo de malandragem. Eu tinha certeza que tinha de acabar com aquilo tudo o quanto antes, e me livrar daquela maldita companhia. Chegamos juntos a Pinacoteca estadual e rapidamente nos despimos de toda cerimônia e invadimos aquele recinto aristocrático, com ares jocosos e olhares lúgubres. Um bando de burgueses mal-satisfeitos! E foi nesse dilema que eu e meu triste companheiro nos separamos. Ele entrou e eu saí.
Vive la fête!

Viva a festa! eu quero saber quem de vocês
conviveu ou convive com a confusão em pessoa?
Quando eu me convenci de que sair de casa,
seria a melhor atitude do ano...
Eis que descobri centenas de novas atitudes melhores ainda!

Viva a festa! essa era minha palavra de ordem preferida,
por quase quatro meses trôpegos e ébrios até o final do limite!
transformei a minha casa num lugar onde reinavam:
bebedeiras, orgias, blasfêmias, cultos ao prazer!

Viva a festa! era o que interessava à corja hedonista,
satisfeita do seu próprio prazer, às vezes com as portas abertas!
vizinhos horrorizados, abaixo-assinados correndo corredores,
ameaças diárias de acertos de contas!

Viva a festa! de quando em quando ameaçada pela janela aberta,
quando o sol invadia sem pedir licença, e inundava o meu quarto!
e encontrava corpos atirados ao chão, embriagados de si mesmos,
dispostos a ressuscitarem e a reinventar o pecado da antropofagia!

7 de julho de 2008

Imprevisível
Imprescindível
Indefectível
Irresistível

Devo começar definindo mesmo
Descrevendo o giro das palavras
Como numa gangorra, roda-gigante,
Uma tarde no shopping, uma escada rolante,
que desce, sobe, segue adiante
Que reconhece, esquece, relembra
E que não me lembra o teu verdadeiro nome.

Ininteligível
Intraduzível
Incompreensível
Intangível

Tudo roda tão depressa, que não consigo compreender mais nada
O que você fala eu não entendo, que língua é essa?
Quero te conhecer de novo, dessa vez sem pressa
Por que o play-center está agora tão escuro?
Entre eu e você, um labirinto soturno, um muro!
Fujo do futuro, luto e me perco sozinho numa estrada

Displicentemente, paro, encosto a cabeça na janela
e penso:
“Como alguém pode me contar que:
Ouviu meus sussurros por outros ouvidos,
Conheceu meus beijos por outra boca,
Meus abraços por outros braços,
Minha história por outra memória
Meu olhar por outros olhos...?”

É fim de tarde, hora de redescobrir o parque
Refazer todos os passos, catar cada pétala atirada
Cada palavra mal-amada, tropeçar na fila mal andada
Redesenhar o recomeço da primeira parte...

Agora tem luz sobre meus olhos, sei quem de fato você é
Ao invés de uma, você são duas, mil ou o que vier...
Não importa, não temo, não me escondo, não me ofereço
A jóia escondida no rincão do rio, lapidada, não tem preço

Lutar e decifrar, é o preço da partilha
Te encontrei ou te perdi?
Alice ou Priscila?

4 de julho de 2008



queria ser um querumbim,
ser teu anjo, só teu,
te velar, me apaixonar,
te fazer ninar, oh nina!

a noite lá fora,
não vê a hora,
de me mandar embora,
por causa da demora!

prometi te fazer
palavras pra ter
versos a valer
um romance que...

fosse possível,
não mais proibido,
uma doce líbido,
pudesse florescer...

como se fosse um castigo,
a lua quis um abrigo,
e não fez sair comigo,
esse sonho antigo...

sonho azul,
sonho nú,
sonho com tú,
sonho de lú...
Bruno

Há muitos anos luto
por um mundo justo e sem opressão,
pelo fim do lucro e da exploração.

Acredito na liberdade e na democracia,
mas sem esquecer
que enquanto houver o domínio da burguesia,
esses desejos não passarão de utopia.

Não sou patriota, não sou cidadão,
pertenço aquela classe,
que pertence ao peão, ao professor
e ao operário-padrão.

Por que defender uma pátria,
que há muito tem dono?
qual seja o imperialismo, os banqueiros,
os ricaços e seu governo mórdomo.

Por um período titubiei,
por caminhos errantes optei,
mas pro caminho da revolução,
certo dia retornei.

Hoje em dia, pertenço a resistência,
seja popular ou do saber,
o que me importa é amar, resistir e lutar,
sem nunca esmorecer,
por ora, esse é o Bruno, que apresento a "ocê"!
Não quero entender

Sem a divina e insípida glória
De me doar à tua história
Restou-me então a angústia
E o caminho ao firmamento

Não quero mais pensar
Aonde te encontrar
Só quero seguir...
Pronto para o juramento!

Sem saber nem o que fazer
Vou demorar...
Caminhar, me revelar, amar,
Tudo... em pensamento

Eu não queria entender
porque você me esqueceu
Mas a dor não me ensina
A livrar-me deste tormento
Destinos

Nós fazemos o nosso próprio destino...
Mas quem inspira os nossos caminhos?
Nele sempre encontrei flores e espinhos...
Por que então não arriscar sozinho?

Se a vida é uma singela incerteza,
Por que então esperar por certezas?
Após a ceia terá sobremesa?
Diga seu nome antes que eu esqueça...

Vida, beijo e conquista...
Certeza, certeza, certeza,
Quem trará você pra mim?

Amor, felicidade, eternidade...
Incerteza, incerteza, incerteza...
Quem tirará você de mim?

22 de junho de 2008

REUNI: fábrica de ilusões

Você acredita em magia? O espantalho, o homem-de-lata, o Leão e a menina Doroth acreditaram. Por isso, na estória infantil, saíram em busca do grande Mágico de Oz. O espantalho, por exemplo, queria realizar seu sonho de ter inteligência, conhecimento... mas, como era feito de palha, não tinha nem mesmo um cérebro!

O grande Mágico de Oz, entretanto, não passava de um impostor. E para esconder de todos que não possuía poderes extraordinários, encontrou uma falsa solução para realizar o sonho do espantalho: em vez de um cérebro, concedeu-lhe um diploma!

Agora, o governo Lula quer utilizar um expediente parecido para melhorar as estatísticas educacionais do país. Para aumentar o número de brasileiros com diploma de ensino superior, criou o Programa de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais – REUNI.

O REUNI nada mais é do que uma falsa solução para os reais problemas da educação brasileira. Em vez de assegurar uma formação de qualidade, propõe-se a lotar as salas de aula das universidades públicas de estudantes. E o pior: aprová-los automaticamente, tenham eles adquirido conhecimento ou não.

Comprometimento da qualidade do ensino

No primeiro artigo do decreto do REUNI vem a primeira exigência do governo para liberação de verbas. A Universidade precisará ter um “melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais.” Ou seja, o governo exige que as salas de aula fiquem ainda mais lotadas e os professores ainda mais sobrecarregados. Em 1995, a relação professor por aluno na UFRN era de 1 para 6. Em 2006, essa relação já estava em 1 professor para 14 alunos. Uma das exigências do REUNI é de que na UFRN tenha 1 professor para 18 alunos! Pela proposta do REUNI, até 2012 serão contratados 344 professores e nesse mesmo período a proposta prevê um aumento no número de alunos em 11.717. Só aí, a razão é de 1 novo professor para 34 novos alunos. Parece até piada, se não fosse uma tragédia para qualidade de ensino da UFRN.

Se isso não bastasse, para liberar as verbas prometidas pelo programa, a nossa universidade se comprometeu com a meta de formar 90% dos ingressos na UFRN. Isso significa que a UFRN irá instituir aprovação automática, o mesmo que acontece no ensino médio e fundamental da escola pública. A qualidade de ensino da UFRN será fortemente comprometida com essa medida. (Art. 1º § 1º do Decreto). Coisa impossível de se imaginar nos cursos de engenharia, ciências exatas e da terra.

O governo é claro quando vincula os repasses de verbas da proposta de adesão ao REUNI ao cumprimento das metas acima: “Art. 6o A proposta, se aprovada pelo Ministério da Educação, dará origem a instrumentos próprios, que fixarão os recursos financeiros adicionais destinados à universidade, vinculando os repasses ao cumprimento das etapas. Ou seja, cumprimento das metas exigidas pelo governo.

O Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT)

Esta é a menina dos olhos do REUNI do governo e da Reitoria. A proposta da UFRN define como “de fundamental importância para o projeto [REUNI] a criação do Bacharelado em Ciências e Tecnologia (BCT)”. Para se ter uma idéia de sua importância este curso irá consumir R$ 4,5 milhões para a construção do seu prédio. Com a contratação de 56 professores e ingresso de 3.398 alunos, até 2012, esse curso terá a insuportável relação de 1 professor para 61 alunos. Além disso, este é um curso de duração de apenas três anos e de formação genérica. Nada garante que haverá vagas para a continuação dos estudos para todos os concluintes do BCT. Com essa massa de pessoas com diploma de nível superior, mas pouco qualificadas, o mercado inevitavelmente, irá pressionar os salários de várias categorias profissionais para baixo.

O mito do “aumento de verbas” para UFRN

Os tão propalados R$ 82 milhões vindos para aumento de “edificações, infra-estrutura e equipamentos” para a UFRN não serão suficientes para comportar 11.717 novos alunos até 2012. Desse dinheiro, mais de R$ 45 milhões estão previstos para os orçamentos de 2009, 2010 e 2011. Diante de sucessivos cortes de verbas, não dá para confiar que esse dinheiro está garantido. No mês passado, o governo federal cortou R$ 1,612 bilhões do orçamento da educação (12% do orçamento). Além disso, dando uma olhada na proposta do REUNI para UFRN vemos que serão criadas somente 464 vagas nas residências universitárias, sendo que dessas, apenas 256 em Natal. Com a vinda de milhares de novos alunos, a superlotação nas residências irá piorar. Serão construídas 58 salas de aula para suportar vários cursos novos, além dos que já existem. A ampliação do Restaurante universitário está prevista apenas para 2010, se tiver verba claro. Os defensores do REUNI falam como se todo o dinheiro prometido pelo governo tivesse numa conta bancária, guardado lá no Banco do Brasil do Centro de Convivência.

Os defensores do REUNI falam em R$ 182 milhões para verba de custeio, mas omitem que desse dinheiro 56% é para pagar os professores e funcionários e apenas R$ 600 mil será destinado a bolsas de assistência estudantil em 2008. Se fosse pagar o que o movimento estudantil reivindica, a Reitoria pagaria apenas 120 bolsistas a R$ 415,00/mês.

DIGA NÃO AO REUNI!

É por essas razões que a Frente do NÃO ao REUNI convoca a todos(as) os(as) estudantes da UFRN a dizerem NÃO! A esse plano do governo e da Reitoria defendido, infelizmente, também pelo DCE. Queremos o direito de decidir e, além disso, o direito de dizer NÃO!

DIGA NÃO À FALTA DE DEMOCRACIA NA UFRN!

O REUNI foi aprovado pelo Conselho Universitário – CONSUNI, composto por 70% de professores. Este conselho é composto pelo reitor, vice reitor, ex-reitores, diretores de centro e gente do governo. Nele participa apenas 4 estudantes eleitos junto ao DCE. É preciso dar um basta a essa falta de democracia, onde temas de imensa importância para o futuro da universidade pública são aprovados na surdina e entre quatro paredes, sem o menor conhecimento da comunidade acadêmica. Queremos que essa situação seja revista e a Reitoria convoque a comunidade acadêmica sempre que for ser decidido algo de grande importância. NÃO À FALTA DE DEMOCRACIA NOS CONSELHOS SUPERIORES!

DIGA NÃO ÀS FUNDAÇÕES ESTATAIS

O projeto de Fundações Estatais de direito privado transfere para a iniciativa privada a função de administrar hospitais e instituições públicas. Precariza o trabalho, reduz a democracia interna nas decisões e abre espaço para a cobrança pelo atendimento nessas instituições. O projeto de Fundação Estatal que está tramitando no Congresso Nacional é na verdade uma emenda de outros projetos aprovados ainda sob o governo de FHC. Agora o governo Lula quer terminar de definir a privatização das instituições públicas, com a transferência da responsabilidade da gerência dessas instituições pela iniciativa privada. Essa desvinculação do Estado acaba por permitir que as contratações de servidores públicos se dêem sem nenhuma garantia dos direitos. Essa conduta relativa a uma instituição privada, abre espaço para posteriores cobrança dos serviços dos hospitais públicos, como já se dá com alguns serviços das Universidades.

DIGA NÃO A BILHETAGEM ELETRÔNICA NOS ÔNIBUS

O SETURN e a STTU criaram o cartão eletrônico para aumentar ainda mais os lucros dos empresários de ônibus. Tanto com uma maior concentração da emissão das tarifas (fim da venda de vales por terceiros),quanto com o desemprego dos cobradores. Isso por si só aumentará a exploração dos motoristas e a insegurança no trânsito. Além disso, é parte do projeto do cartão eletrônico a retirada de direitos dos estudantes, como o seu bloqueio fora do horário da escola e universidade, férias e feriados. DIGA NÃO AO DESEMPREGO E À RETIRADA DE DIREITOS!

7 de maio de 2008

Cinqüenta minutos com pri...

Quanta ousadia da sua parte,
Eu me achei sempre moderno e liberal
E hoje, aqui, estou aprendendo contigo
A me surpreender, de novo, agora mesmo
E assim, me sinto mais moderno
como se fosse a primeira vez...

Mas era
A sua primeira vez.
E eu é quem sou o bobo da história.
Mas que bobo, feliz, louco momentaneamente.

É como se o calor da cidade,
virasse primavera e a primazia
de tua companhia em instantes.

Não foram cinco minutos que nos separaram.
Foram cinqüenta minutos que nos entrelaçaram,
e me fizeram compreender que
a cumplicidade é fugaz,
o desejo é progressivo
e a esperança alimenta.

E é um privilégio me lembrar de ti,
cada segundo de cinqüenta minutos.
Estou ardido, sincopado, feliz e calado.

Não posso gritar, não posso te chamar: pri...

8 de abril de 2008

Fotos da Assembléia Estudantil da Ocupação da Reitoria da UnB

Mais de 1.500 estudantes lotaram as rampas e pátio do prédio da Reitoria para discutirem pauta de reivindicação e queda do Reitor Timothy Mulholand



Nesta massiva Assembléia, realizada segunda-feira (07/04/2008), foi aprovada uma pauta reivindicatória com 15 pontos


Uma outra importante definição foi que para garantir a pauta de reivindicações dos estudantes, seria ocupado o restante do prédio da Reitoria d aUnB

7 de abril de 2008

OCUPAÇÃO DA REITORIA DA UNB - UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA EXIGE A RENÚNCIA DO REITOR

Estudantes da Universidade Brasília aprovaram em Assembléia estudantil, realizada no último dia 4 de abril, a ocupação da Reitoria da Unb exigindo a renúncia do Reitor e seu Vice. A razão da manifestação são os gastos de verbas de pesquisa da Fundação Universidade de Brasília (FUB) com mobília de luxo do apartamento funcional do Reitor. O símbolo do escândalo é um lixeiro comprado pela soma de R$ 1.000,00.

A reitoria já entrou com pedido de reitegração de posse, que foi prontamente atendida pela Justiça Federal. A Polícia Federal deu prazo para a desocupação até às 15h de hoje, mas a Assembléia Estudantil, realizada ao meio dia de hoje, rejeitou esse ultimato e ratificou que só sairá do prédio quando o Reitor entregar o seu cargo para que as investigações possam ocorrer.

Houve ainda um processo de reocupação do prédio da Reitoria. Nesse momento todos os andares estão ocupados. A Reitoria cortou o fornecimento de água e luz. Moções e Cartas de apoio a luta dos estudantes chegam dos quatro cantos do país.

3 de abril de 2008

Pé na estrada, rumo a Moçoró e a Açú

Antes de tudo, a controvérsia já está lançada. Por que escrever Açú e não Assú? Moçoró e não Mossoró? Polêmica lançada antes mesmo de pôr o Pé na estrada ou En el camiño como preferem os hermanos argentinos, leitores assíduos - assim como eu - de Jack Kerouac. Bom, voltando a questão trazida aqui, essas duas palavras devem ser escritas com a letra "c" e o cedilha porque são palavras de origem indígena e quando se aportuguesou palavras com essa procedência convencionou-se escrevê-las de tal modo.

Mas a razão do meu desbunde rumo ao Vale doAçu e logo em seguida ao Oeste tem a ver com a tarefa que assumi recentemente de compor a Coordenação local do Instituto Latino Americano de Estudos Sócio-Econômicos - ILAESE. E neste fim de semanas eu e o camarada Fred, cearense radicado na Bahia, iremos conduzir um curso sobre a História do Movimento Operário brasileiro para ativistas ligados ao Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal - SINTSEF.

Para isso é preciso estar com a mochila sempre a mão, e pronto pra partir. Até segunda-feira pessoas.

26 de março de 2008

40 anos sem o estudante Edson Luís

Em 28 de março de 1968, Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista, então com 18 anos, tomba no restaurante Calabouço, freqüentado por jovens estudantes pobres de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro.



Naquela noite de 28 de março, Edson Luís, juntamente com outros estudantes, organizava um protesto contra as más condições de higiene e estruturação do restaurante Calabouço, cujas obras de reforma haviam sido paralisadas. Na ocasião, a tropa de choque da PM do estado da Guanabara invadiu o local e agiu conforme noticiou o jornal carioca “Correio da Manhã” em 29/3/1968:



“Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fez à bala. Há um estudante morto, um outro em estado gravíssimo. (...) Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa toda discussão sobre se os estudantes tinham ou não razão - e tinham. (...) Atirando contra jovens desarmados, atirando a esmo, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua ação, ontem”.



Essa longa citação fala por si mesma e dispensa qualquer acréscimo. A partir daí, como revolta organizada e ao mesmo tempo espontânea, o povo carioca e brasileiro saíram as ruas para enfrentar o regime autoritário. Na mesma ocasião do assassinato de Edson Luís, um porteiro e um funcionário de escritório foram mortos por balas perdidas.



O corpo do jovem Edson Luiz, morto, foi levado pelos seus companheiros e pelo povo para ser velado na Assembléia legislativa. A missa de sétimo dia se transformou em um ato político contra a ditadura militar. Em 26 de junho de 1968, ocorreu a Marcha dos Cem Mil, a maior manifestação contra a Ditadura Militar até aquela data, como decorrência dos protestos contra a situação dos estudantes e como repúdio ao assassinato de Edson Luís.



Esse era o movimento estudantil brasileiro há 40 anos. Aliado ao povo explorado e oprimido, ainda que fosse uma aliança intuitiva e sem a união estreita com a classe operária, mas o instituto de classe era uma marca sua indiscutivelmente.


Foto: Henrique José

Hoje, se o camarada Edson Luís estive vivo veria, infelizmente, um movimento estudantil dividido e traído pelas direções governistas. Queremos destacar que a divisão do movimento estudantil é empreendida justamente por aqueles que reivindicam a representatividade histórica da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Essa divisão se dá porque a UNE e a UBES dirigem um setor do movimento estudantil para o campo de sustentação e apoio do governo Lula. Este mesmo governo que aplica políticas de corte de verbas da educação para pagar a dívida pública, arrocha o salário dos trabalhadores do setor, impõe uma reforma universitária para adequar o ensino superior aos interesses do capitalismo brasileiro e do imperialismo em geral. Como se não bastasse. ainda aumenta o ritmo de privatização do ensino – seja pela via da fomentação do ensino pago, através do Programa Universidade Para Todos, ou pela via da “desestatização”, como ocorre com o incentivo às parcerias público-privada: as fundações privadas no interior das universidades e Cefets, a lei de inovação tecnológica.



Atualmente, vários ativistas honestos – digamos, milhares de Edson Luís – estão lutando contra o Programa de Apoio a Planos de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais – o REUNI – do governo Lula. Estamos organizando, em todo o país, uma jornada de luta em memória ao camarada Edson Luís e à sua luta, mas também porque a luta por educação pública e de qualidade, passados 40 anos, permanece atual.



Em maio, prosseguiremos nossa luta promovendo em todas as universidades federais do país, juntamente com servidores técnico-administrativos e professores, um plebiscito sobre a implantação do REUNI, onde diremos um sonoro NÃO ao governo Lula.



Edson Luís, que tombou por causa do regime autoritário e repressivo, não estaria satisfeito se hoje, aos 58 anos de idade, conhecesse um país governado por ex-dirigentes da luta contra a ditadura militar, mas que hoje se tornaram dirigentes do governo da ditadura do capital. Que, em última instância, governaram e governam para o mesmo sistema sócio-econômico: o capitalismo. Se Edson Luís estivesse vivo, talvez não ligasse para política. Mas provavelmente seria ele um trabalhador que veria em nosso país uma realidade de desemprego crônico, uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro, um Brasil sem reforma agrária, a falácia do fim da dívida externa, banqueiros lucrando bilhões à custa de um salário mínimo de fome, reformas da previdência e trabalhista sendo gestadas contra os trabalhadores.



Enfim, acreditamos que se o jovem Edson Luís estivesse vivo e com o mesmo ideal de justiça e coragem para lutar, com certeza, estaria do nosso lado. Do lado dos que seguem lutando ao lado do povo, junto dos trabalhadores desse país.

14 de março de 2008

Vou me formar em história e agora?
Esse artigo foi publicado na Revista Profissionais & Negócios (Natal-RN), edição número 4, fevereiro de 2008.

A história é uma ciência inseparável da atividade humana em sociedade. Em pleno século 21, não é possível imaginar uma comunidade, um povo, um Estado, uma nação soberana sem um mínimo acervo de conhecimento sobre sua própria história.

À primeira vista, a História é apenas mais uma disciplina escolar, enfadonha para uns e apaixonante para outros. É claro que a grande maioria dos historiadores profissionais está atualmente em sala de aula. Mas ser historiador é muito mais do que isso. Em primeiro lugar, a sua formação é algo fascinante para qualquer um, independente da idade. Estudar as origens da humanidade, tomar parte de alguns problemas que nossos ancestrais enfrentaram na longa caminhada evolutiva e, por fim, conhecer as diversas organizações sociais desenvolvidas pelo homem moderno nos apresenta uma face sedutora dessa ciência. Como diria meu historiador preferido, o alemão Karl H. Marx (1818-1883): “tudo o que é humano me interessa”. Dito isso, o dilema sobre o que fazer depois de formado em História pode ser facilmente resolvido.
O graduado em História tem que responder a inúmeros desafios contemporâneos. Precisa produzir conhecimento histórico e ao mesmo tempo ter interesse e vocação para “ensinar” esse conhecimento. E é dessa maneira que a profissão de historiador se apresenta. Principalmente hoje, porque me parece que finalmente a nossa profissão não sofre mais da dicotomia professor versus pesquisador. Um historiador profissional deve ser considerado aquele que tem todas as competências tanto para lecionar quanto para pesquisar e escrever sobre história.

Encarando a profissão de historiador desde este ponto de vista, as áreas de atuação profissional se tornam múltiplas. Temos espaço no serviço público, área que nos últimos anos tem passado por um boom na oferta de vagas, e onde podemos desenvolver pesquisa, trabalharmos com arquivos públicos, produzirmos trabalhos historiográficos de interesse público; para quem gosta de trabalho ao ar livre, longe dos gabinetes acadêmicos ou das repartições, existe a possibilidade de trabalho com a arqueologia, que busca através de escavações em sítios arqueológicos encontrar indícios do nosso passado remoto; além, é claro, do espaço da sala de aula, para os que gostam de ter contato com a discussão e a reflexão cotidiana com alunos do ensino básico ou nas universidades com os futuros historiadores.

Assim é o universo do historiador profissional. Cheio de desafios que exigem respostas para entendermos bem aonde chegamos neste mundo contemporâneo. E de onde tiraremos do passado, algumas conclusões que sirvam de norte para os problemas e inquietações do presente.

10 de março de 2008

Em 8 de março, assim como em todos os dias, mulheres e homens trabalhadores devemos lutar.

Estamos a 151 anos do massacre imposto às 129 operárias téxteis de Nova Iorque, EUA, em 8 de março de 1857. Neste século e meio de lutas da classe operária mundial muitas vitórias táticas e derrotas estratégicas marcaram essa caminhada para as mulheres da nossa classe. Algumas concessões - advindas do período de ascensão do capitalismo (1860-1890) - foram dadas às mulheres e homens de nossa classe, vale ressaltar que ao custo de muitas lutas encarniçadas. Jornada de oito horas, proibição do trabalho infantil, direito ao voto, acesso a educação, salários menos desiguais (no século XIX as mulheres chegavam a receber 1/3 do salário dos homens, hoje as mulheres recebem cerca de 70% do que o homem).

Evidentemente, falta muito para as mulheres conquistarem tanto do ponto de vista econômico e social, quanto do ponto vista humano e moral. Além da exploração comum a toda classe trabalhadora, as mulheres sofrem o que chamamos opressão. Opressão é quando um gênero, uma raça, uma nacionalidade, uma orientação sexual, um grupo social ou religioso é colocado em posição de submissão e dessa posição se vale o opressor para ampliar a exploração. As mulheres, portanto, no capitalismo, são exploradas enquanto trabalhadoras e oprimidas enquanto mulheres.

As mulheres burguesas são oprimidas pelos homens burgueses, mas não são exploradas, ou seja, sua relação social diante da propriedade é a mesma. Por isso, os objetivos históricos das mulheres burguesas e das mulheres trabalhadoras são igualmente antagônicos e irreconciliáveis.

As mulheres da classe trabalhadora sofrem cotidianamente com o machismo empregado no trabalho. Sofrem também com as "triplas jornadas", que começam no local de trabalho e acabam em casa ou vice e versa. Outras sofrem com o super-alienante trabalho doméstico não pago, extremamente desvalorizado por seus companheiros e pela sociedade em geral. Além da opressão vinda diretamente do sistema capitalista (empreendida pelo patrão - através de salários menores do que o dos homens, assédio sexual, etc), existe ainda a opressão vinda dos seus próprios companheiros, filhos, pais, colegas homens de trabalho (uma expressão da ideologia burguesa dentro da classe trabalhadora).

Nem quando pretensos governos de frente-popular chegam ao poder, como o de Lula/PT e PCdoB, a situação da mulher muda para melhor. Como esses governos são burgueses disfarçados de operários (a história dos 5 anos de governo Lula já demonstrou isso) a situação da mulher trabalhadora só piora. Muitas "reformas" neoliberais que os governos anteriores não conseguiram implementar, o governo Lula vem tentando implementar como a reforma da previdência que aumenta o tempo de trabalho da mulher, desconsiderando que esta tem uma "tripla jornada" de trabalho. Um governo que cria Secretrarias Nacionais (com status de Ministério) sem verbas e sem atuação prática na vida das mulheres; cria também leis, como a "Maria da Penha", muito bonita para sair na foto, mas que na realidade não responde e nem dá conta de conter todas as barbaridades cometidas contra a mulher pelo país a fora.

Como se não bastasse, ainda há, como é peculiar ao capitalismo, a apropriação do próprio Dia Internacional da Mulher - que como bem lembramos no início desse artigo, tem a ver com uma luta operária contra a exploração e opressão. Muitos governos, empresas e redes comerciais transformam este dia em um valioso "produto" para ser vendido como bem lhe interessar. Seja com propagandas, homenagens, flores, "liquidações" ou outras ilusões.

Para se livrar de todos esses males, as mulheres trabalhadoras em unidade com os homens desta mesma classe precisamos lutar todos os dias contra os governos que representam a burguesia, o capitalismo e o imperialismo. Precisamos somar as vitórias táticas ditas acima com a vitória estratégica, que é a vitória de uma revolução operária e socialista que destrua o capitalismo e imperialismo e comece a constuir uma nova sociadade: a socialista. E que a partir da construção dessa nova sociedade, trabalhadores e trabalhadoras possam ir destruindo os restos da opressão deixadas pela velha sociedade e, assim, a mulher possa conquistar a sua verdadeira emancipação, algo tão sonhado e que - desde a existência das sociedades com diferença de classe - jamais foi conhecida.

3 de março de 2008

Que dizer sobre os acontecimentos de sábado e sobre a possibilidade de enfretamento militar entre Colômbia, Venezuela e Equador?
Desde Sábado, com o anúncio do assassinato de Carlos Reyes, segundo comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC, prenuncia-se um forte tensionamento entre Venezuela, Colômbia e Equador. A grande imprensa internacional e brasileira têm feito uma campanha imensa no sentido de caracterizar as FARC como um bando de terroristas, financiados pelo narcotráfico internacional. A recente campanha teve início com a “Operação Emanuel” que visava libertar ex-parlamentares colombianas seqüestradas pela guerrilha havia 6 anos. Uma das seqüestradas, Clara Rojas, inclusive, tem um filho com um dos guerrilheiros das FARC, a criança Emanuel.

Antes de tudo, preciso dizer que discordo da estratégia das FARC, a guerra de guerrilhas prolongada. Esta estratégia consiste em formar um partido-exercito altamente disciplinado e centralizado pelo seu Comando. Não há democracia interna nas FARC, portanto a base dos guerrilheiros não opinam na linha geral do partido-exército. Isso implica que essa organização não é capaz de dirigir conseqüentemente uma revolução socialista, com a classe operária colombiana a frente do processo. Nesse sentido, tenho total desacordo com a estratégia, a política e o método de luta implementado pelas FARC. Sem embargo, diante do crescente endurecimento do regime reacionário de Uribe e da possibilidade de choque militar, todos os lutadores e revolucionários devem optar por um campo militar. A nossa opção, desde já, é clara. Estamos no campo militar das FARC, contra Uribe e contra o imperialismo norte-americano (financiador e instrutor do Plano Colômbia), mas com total independência da direção guerrilheira e apoiando a construção de uma direção socialista, revolucionária e que empregue a democracia operária como método de atuação.

Com os acontecimentos de Sábado, a invasão do território equatoriano para desmontar e assassinar Carlos Reyes e mais dezesseis guerrilheiros, mais uma vez a esquerda revolucionária latino americana e mundial precisam dar uma resposta ao posicionamento dos governos burgueses de Chávez e Correa. Em primeiro lugar, quero reafirmar a caracterização de que tanto Chávez como Correa dirigem governos e regimes burgueses em seus países. Que pertencem a Estados burgueses que administram a forma como a burguesia explora, oprime e reprime as classes trabalhadoras venezuelana e equatoriana. Por isso, neste momento, mais uma vez, os trabalhadores latino americanos não devem depositar a menor confiança de que tanto Chávez ou Correa irão ser conseqüentes em um possível enfrentamento militar entre Colômbia e seus países. Sem embargo, diante de um possível enfrentamento – do qual ainda não estamos certos se de fato ocorrerá –, os trabalhadores deverão organizar suas próprias milícias e destacamentos armados, e ainda exigir que Chávez e Correa distribuam armas entre os trabalhadores.

Sendo assim, a esquerda revolucionária deve estar no mesmo campo militar de Chavéz e Correa, mas com total independência política desses governos burgueses, e construir, ao lado dos trabalhadores venezuelanos e equatorianos, uma alternativa de direção ao castro-chavismo (corrente internacional, da qual Rafael Correa e Hugo Chavéz são destaques) que seja operária, socialista e internacionalista. Uma direção oposta ao que representam Correa e Chavéz: dois governos burgueses e que se apóiam na principal instituição de um Estado burguês, as Forças Armadas.

De seu lado, o governo Lula já aparenta cumprir o seu papel na região: sub-metrópole da América do Sul, com laços semi-coloniais com os Estados Unidos. Seu chanceler, Celso Amorim, de pronto apresentou-se para negociar com os três governos e fazer valer a política geral do imperialismo norte-americano para a região: Plano Colômbia e destruição das FARC (para isso, Venezuela e Equador devem se manter fora dessa questão); Tratado de Livre Comércio – TLC – com o Equador, para manter o comércio desigual e privilegiado com este país e escoar os produtos e implantar as multinacionais norte-americanas, principalmente em tempos de crise; e seguir as relações comerciais que envolvem o petróleo venezuelano (hoje, a Venezuela é o terceiro maior abastecedor de petróleo dos Estados Unidos). Por tudo isso, fica evidente quais são as tarefas dos revolucionários, lutadores e de todos os trabalhadores do continente, antes, durante e depois de qualquer ameaça de enfretamento militar entre os três países. Romper com o TLC equatoriano. Derrubar o governo reacionário de Uribe e o Plano Colômbia, ao passo de não entregar o poder às FARC e sim criar uma nova direção para a revolução colombiana. Desabastecer os Estados Unidos de petróleo venezuelano e estatizar todas as companhias estrangeiras sem indenização e sob o controle dos trabalhadores. Impedir que o Brasil se meta no possível conflito, seja belicamente ou diplomaticamente, uma vez que, como tem demonstrado a ocupação militar do Haiti, o governo Lula cumpre um papel auxiliar dos interesses norte-americanos na região.

27 de fevereiro de 2008

Retomada dos trabalhos

Caros leitores,
É com muita consideração que peço desculpas pelo grande espaço de tempo parado - 21 dias. Estava vivendo aqueles períodos em que qualquer ser mortal fica travado e sem inspiração nenhuma para criar ou opinar sobre nada - apesar de permanecer observando tudo. É o que chamo de "crise de intervenção". Esse é um dos piores males, pois lança um estado de letargia justamente sobre aqueles que se propõem a serem ativos e minimamente críticos.
Mas não foi uma paralisia só da observação ou da crítica política, senão também um estacionamento artístico e espiritual. Parece que quanto mais projetos me aparecem para dar conta, mais eu fico questionando quais são meus limites. Isso tem a ver com as grandes diferenças entre um projeto e outro. Isso tem a ver também com o caráter uno que cada um de nós temos. O que quero dizer é que estamos sujeitos a enfrentar problemas espirituais em meio a uma grande efervescência de criação artística ou de intervenção política - e vice-versa.
A minha parada nesses vinte e um dias tem a ver com isso. Tive um semi-cataclismo pessoal, suportado a base de muita convicção naquilo que pretendo fazer, no que acredito ser verdade e no que - em realidade - amo.
Allé, estou de volta
Proletariado brasileiro

A revolução visitou o Equador
e não encontrou sua direção,
depois seguiu rumo a Argentina
e mais uma vez antecipou a situação,
quis encontrá-la, então, na Bolívia,
e mesmo com toda a história de luta daquele país,
não havia lá a organização...
Hoje, a situação revolucionária
incendeia a Venezuela,
mas ainda não é agora
que o encontro definiu uma solução.

O problema da pobre América latina,
é que os erros e vacilos da esquerda,
constantes e demasiado repetitivos
em nosso continente,
não poderá vacilar
ao tentar despertar,
com o furor da revolução,
o grande e adormecido vulcão
(proletariado brasileiro)

6 de fevereiro de 2008

Abra-te a mim
Esses últimos dias foram realmente decisivos para eu poder compreender o que está havendo comigo. O que está se passando ao meu redor. Pra isso, foi necessário que eu investigasse uma vida. Tomasse contato com detalhes que já estavam adormecidos em um passado remoto. Acordar-lhes fez muito mal. Mas às vezes um bom acerto de contas com o passado, talvez, seja o único remédio para livrar-mo-nos dele de uma vez. Tratou-se de uma investigação consentida, nada de invasão ou qualquer outra inconviniência egoísta. A vida e sua história abriram se pra mim em forma de relato, de drama, tragédia. Assistí-la me deixou hora comovido, hora indignado e pude, à minha maneira, expressar tudo isso.
O medo, o temor da perda são constantes em nossas vidas. Principalmente porque são espectros reais, que de quando em quando se aproximam, depois se afastam. Para destruir esses fantamas será necessário muita união, cumplicidade, sagacidade, honestidade, sinceridade e, claro, amor.
Penso estarmos construindo essa receita. O que andei lendo por esses dias me fez crer muito nisso. Penso estarmos no caminho certo.

3 de fevereiro de 2008

Afinal, é carnaval!

O carnaval é motivo para parar tudo, correto? Errado! Saí por alguns instantes da folia pra registrar o que andou se passando. Nesse carnaval, diferentemente do passado, tenho me portado tranqüilamente. A folia é privé. Pode isso? Deixei de cair na estrada (meu passa-tempo favorito e sonho de consumo) pra curtir a calmaria(?) de um carnaval caseiro. Tenho lá minhas reservas quanto o que acabei de dizer porque a enxaqueca de hoje de manhã estava impagável. Imagine que a farra foi terrível. Eu, meu companheiro de moradia e um casal de amigos fomos o suficiente pra curtir tudo de uma maneira nada-tradicional, afinal é carnaval! Calma aí, não tô me referindo a nenhum fetiche de um pierrot pervertido não... Estou somente registrando que entre os lícitos e ilícitos não vi nem as luzes deste sábado se apagarem, na verdade: eu me apaguei primeiro!
Veja só: deixei de partir para dois roteiros tentadores e completamente distintos. Uma serra (Vital/Paraíba) e uma praia paradisíaca (Aracati/Ceará). Tudo isso por um pressentimento de não me aventurar pelas estradas nesse fim de semana. Será que foi um boicote sub-consciente a determinação oficial de proibição da comercialização de bebidas alcóolicas em rodovias federais? Ou mesmo um aviso para-materialista para ficar quieto no meu lugar? Bom, como dizia um antigo amigo: "na dúvida, não coma!". E já que eu não tinha certeza, resolvi ficar em casa mesmo.
De uma coisa eu posso assegurar-vos: não me arrependi mesmo, estou super feliz e curtindo pra caramba (daqui uma hora quando eu chegar, com certeza a turma estará me esperando). Só espero ser mais resistente hoje com relação ao que fui ontem. Pra você ter uma idéia, simplesmente por volta das 10 da noite recebi um contato no celular, retornei a ligação inconscientemente (com certeza meu sub-consciente identificou a importância da pessoa em questão) e somente hoje de manhã percebi o que havia se passado. Obviamente, graças aos registros do meu celular. Bom, espero que isso não passe hoje de novo. Ah, e se você estiver lendo isso agora, me liga vai. rsrsrsrs.
Por enquanto é isso aqui!
Afinal, é carnaval!

31 de janeiro de 2008

Contributo ao Manifesto dos Barretes Vermelhos em Fúria
Diante da guilhotina um ser de olhar tácito e lúgubre espera para pagar tudo o que cometeu sobre a face da Terra. Não se sabe ao certo se o infame explorou centenas ou milhares de homens e mulheres no chão de uma fábrica ou nas profundezas de uma mina; nas caldeiras de uma usina ou nos corredores de um magazine. O que sim se sabe é que a hora do acerto de contas está próximo. O povo, o justiceiro e carrasco mais legítimo de toda história, não tem permissão de oferecer clemência ao verme vil. Não lhe é dado permissão de clemência justamente pela confiança que lhe foi dada pela memória dos milhões que tombaram com a violência cotidiana do labor.
O vôo justiceiro, jacobino e certeiro é implacável. Todas são nossas armas. A foice, a guitarra, a palavra, a idéia, o amor, a música, a cena, o drama, a discussão, a filosofia, a sinergia revolucionária e tudo lo más. Não conhecemos fronteiras nem limitações culturais. Somos supra-anti-etnocentristas. Ou seja, super-culturalistas. Tudo o que é humano nos interessa e, por isso, nos é válido. Somos intransigentes, mas o contrário dos vermes sectários. A estrada é o único caminho que nos parece digno. Rompemos com o gueto, o povo nos interessa. Não somos pacifistas. Queremos a guerra. Queremos a morte do Rei e da Corte. Ou isso, ou a nossa luta até o tombo do último barrete vermelho.
Hoje somos música, somos amor, somos luta, somos liberdade, somos poesia, somos beleza, somos eternos, somos aqui-agora-e-a-todo-instante.
Somos uma confraria de Barretes Vermelhos em Fúria. Queremos sangue.

30 de janeiro de 2008

Carta II

Não consigo parar de te admirar. Nossa, cada verso contado da sua história me deixa em estado síncope. Sua bravura é surreal. Hoje você me fez seu fidedigno confidente. E com toda lealdade que for capaz, honrarei tal compromisso. Senti a tua falta. Hoje como sempre meus pulmões necessitam sentir o calor do teu hálito. Decidimos de uma vez abrirmos os capítulos das nossas vidas. Decidimos perdoarmos a nós mesmos e sermos solidários com o outro. Aqui como aí, a presença torna-se sempre uma só. Você é mais do que qualquer coisa na Terra, você é meu céu, você é meu referencial, o norte, você é tão linda. Você me diz que eu sou lindo e pela primeira vez eu acredito em alguém. Porque você para mim é a verdade. Você me quer ler, você me quer ter, você me quer sentir. Eu quero me doar. Viajaria, como fiz sonhando, à tua terra para encontrar o sentido da vida: o prazer e a felicidade plena. Não me canso de te homenagear porque isso pra mim é a forma mais honesta de te adorar. Te devo todo meu respeito, o meu compromisso. Te juro, nunca te trairei. Você não merece o engano, senão o contrário. Sou o guardião dos seus sonhos. Quando o mal te pertubar, me chame. Bastará pensar forte em mim que logo chegarei. Te amo.
(retirado do manuscrito na noite de 7 de janeiro de 2008).

29 de janeiro de 2008

Carta I

Vamos deixar a natureza guiar as nossas decisões. De que outra maneira eu poderia querer iniciar esta carta? Tão entre-nós-dois. Aparentemente pública, mas em sua essência tão íntima. É assim que tem sido. Preciso te dizer, uma vez mais e sempre direi: não se trata de uma aventura, um fetiche ou qualquer coisa do tipo, Não! Afirmarei isso sempre e mil vezes: que te adoro demais, te quero comigo... enfim, estoy enamorado de ti! Mas vamos voltar por um instante ao início. Todas as conversas que tivemos sempre direcionaram a um só destino: la pasión!

Desde tudo que trocamos, seja carinho, palavras, mirates...

agora é a minha vez de te confessar algo. A nossa paixão não tem toques, calor ou sexo. A nossa paixão é surreal. A nossa paixão é mental. Seja visual ou baseada numa troca alucinante e carregada de palavras sinceras que expressam com exatidão toda a natureza de uma paixão inexplicável, inconfessável e inexorável. Mas que você e eu aprendemos a compreendê-la e a sermos fiéis depositários dela.

(adaptação do manuscrito na madrugada do dia 5 para o dia 6 de janeiro de 2008, pois a carta original é impublicável no presente momento).

21 de janeiro de 2008

Programa estranho ou caminhos revisitados...

Sábado à noite em Natal. Desde os idos de 1998/1999, conheci a Rua Chile, Ribeira, Natal. Antes de tudo precisamos falar um pouco das suas adjacências: travessa Venezuela, travessa Argentina, rua Dr. Barata (Casarão da Ribeira), Rua Tavares Lira (Bronx), Igreja Bom Jesus (e o velho MP3 de guerra - nossa, uma oficina cheia de sucata e que deve mesmo se chamar de "Lugar do caralho!"). Dos meus 16 anos até os 21 foram por essas paragens que eu pirava. Uma noite com grana, outra só com os passes do autobus; uma noite sóbrio, outra largado pela rodoviária velha; uma noite patinho feio outra ao lado de uma gatinha. E assim era. Ao lado do velho MP3, em termos de curtição, liberdade, rock n´roll viceral e expectativas adolescentes, existia também o Casarão da Ribeira. Esse point nunca poderá ser esquecido pela geração que viveu a última década do milênio passado aqui nesta cidade. Simplesmente por isso: o Casarão era direto, seco e o ambiente falava por si só. Bastava vivenciá-lo e só. Cada noite, cada banda, cada show: marcavam impressões únicas. E assim fora.

As adjacências na verdade, nada mais do que refletiam as imagens, os sons e as energias que circulavam por todos os lados e corpos que habitavam a rua Chile em qualquer fim de semana, à noite, nos fins de 1990 e início do século XXI. Não vamos falar dos cheiros da rua Chile porque entre ares agradáveis e desagradáveis a minha memória olfativa não é capaz de recordar agora.
A rua chile, seu largo, B52, Blackout, Whiplash, Bar das bandeiras, Downtown e muitos espaços que surgiram antes e depois desses aí fizeram toda a geração anterior curtir de tudo. Isso é que era espaço pra todos os gostos, pra todas as turmas, enfim... um espaço alternativo, como em meados da década passada, nós gostávamos de nos definir.
Mas só falta uma coisa pra mim nessa história toda. Preciso sacar que esse tempo, infelizmente, já se foi. A rua chile mudou. As adjacências mudaram também. Tanto a Casa da Ribeira quanto o MP3 foram extintos. Ainda resta o Rock na Rua, que rola no meio do ano na Tavares Lira. Mas é isso. Às vezes, pode ser que tenha algo legal acontecendo pelo DoSol Rock Bar. Mas somente às vezes mesmo. Porque neste último sábado, à procura de aventuras e curtição, me dei de que cara com um showzinho frio, um público muito pequeno-burguês, alguns poucos amigos das "antigas, enfim... revisitei o lugar certo, mas no dia e na hora errada. Bueno, deixa pra próxima...

17 de janeiro de 2008

No ritmo da vida... ou como é que eu vim parar aqui?

A minha relação com o movimento literário conhecido como beat é recente. E intensa. Eu me identifiquei de cara com aquele negócio de prosa expontânea (porque há uns 5 anos atrás eu comecei a suspeitar - coisa que até hoje não confirmei - que sofro de dislexia) e me viciei em Jack Kerouac. Seu estilo, suas histórias, aventuras e principalmente a sua maneira de descrever as sensações e as vibrações das pessoas e lugares. Eu confesso que até cheguei a pensar se viver naquele estilo, curtir tudo AQUILO não seria incompatível com o meu projeto revolucionário. Nossa, por que pensei isso??? Mas é claro que ninguém vai viver como Dean Moriarty ou como Mardou Fox. Me toquei que ser beat é transar um estilo literário libertário e, junto com outros amigos beat´s, nas horas de encontros e conversas tranqüilas praticar alguns ritos beatniks. As famosas beat reunions.


Esses dois últimos anos têm sido muito ricos pra mim. Como eu sempre tenho dito, as experiências que se acumulam a cada instante-dia-segundo trazem lições tremendas pra mim. O único problema é que custo a atender. Vou explicar melhor. O verão de 2006 foi o catalisador de uma experiência-militância política muito rica pra mim. Foram várias jornadas ao redor do país. Pus meu pé na estrada literalmente, rodando pelo menos 18.000 km de ônibus em duas viagens de Natal a Brasília de ida e volta, e outra do mesmo tipo para Porto Alegre. Essas viagens, a intervenção que mantivemos no movimento estudantil, as pessoas que eu conheci, os ativistas que ajudei a ganhar para o partido, as garotas que conheci, tudo isso veio como uma tsunami no verão de 2006. Comecei cortando a minha longa cabeleira pra tipo sair do casulo, isso seria simbólico e só! Nossa, vieram mais aventuras, desafios políticos e teóricos, paixões, trabalho pesado, farras. Você pode ter certeza que nessa altura do campeonato eu tava vivendo numa pilha... Mas que nada, na verdade eu tava seguindo o ritmo da vida. Pra completar, em julho de 2006, topei a parada de lecionar pela primeira vez. Que experiência! Eu tinha simplesmente 21 turmas e ministrava aulas de História, Sociologia, Filosofia, Cultura do Rio Grande do Norte e Atualidades para o vestibular. Agora você tem noção da minha puta responsabilidade??? Bom, eu mesmo devia ter lá no fundo alguma noção, e eu tentei ser justo e correto com todas elas (e não estou dizendo isso só porque algum aluno um dia pode vir a ler isso aqui - e sim porque afinal de contas lecionar pra mim é simplesmente do caralho!). Fui expulso de 2006 em uma velocidade alucinante, quase virei um alcoólatra, briguei demais com minha mãe... Talvez em determinados momentos eu tenha mesmo perdido as rédeas. Bom, e foi nesse pique que entrei em 2007 e vocês já sabem no que deu. Bom, creio que de uns tempos pra cá as coisas tenham ficado mais sob controle, finalmente eu saquei que não sou uma personagem de Jack e sim um cara que pode curtir tudo e numa boa e da maneira tradicional por que "afinal de que outra maneira, poderíamos curtir?". É ISSO!
Hoje eu estou mesmo querendo refletir. Relaxar um pouco a cabeça. Sabe, isso é bom. Afinal de contas eu não sou nenhum paranóico pra ficar aqui só falando e me lamentando das dores que ando sentido na vida. É claro que eu não esqueço daquela garota, mas eu preciso seguir no ritmo da vida. "eu vou no ritmo da vida, eu vou no ritmo que a vida me levar... eu vou andando, eu sigo em frente a caminhar... chegando lá..." (No Ritmo da Vida - Wander Wildner).

E como bom beat, nada melhor do que escrever. Nada melhor do que pensar. Nada melhor do que viver. Nada melhor do que viajar (Buenos Aires, em julho, minha estréia como mochileiro, e esse blog irá transbordar). Nada melhor do que cantar. Nada melhor do que encontrar os amigos. Nada melhor do que surfar. Nada melhor do que rir à toa.

Até parace que eu ando assim tão feliz...

16 de janeiro de 2008

Eu não entendo por quê eu sou assim. Por que eu te perdi? Sempre que eu penso estar chegando próximo da felicidade, ou seja, próximo de encontrar mais alguma parte do sentido da vida acontece uma separação. O pior tipo de separação. Uma separação sem razão, onde os amantes são apenas duas peças de um grande xadrez universal jogado por uma mão invisível e insensível. Eu sei bem do que estou falando porque na vida eu já assisti esse filme inúmeras vezes. A diferença é que os personagens eram os outros. Mas desse filme absurdo que estou vivendo hoje eu nunca quis fazer parte, eu não conheço seu roteiro, o diretor é invisível e ele parece não ter fim. Estou me sentindo destruído. Estou com vergonha e raiva de mim mesmo. Nem me despedir eu soube. Não falei tudo o que queria, não fiz as homenagens que pretendia, não agradeci tudo o que recebi, não guardei todas as imagens que gostaria.
Agora, no ápice da minha tristeza o que menos quero é me sentir um coitado, um impotente, não quero piedade de ninguém. Meu amor foi embora. Me fez prometer um monte de coisas. Iremos guardar muitos segredos. E ter consciência disso pra mim é o bastante.
Talvez eu não tenha tomado as atitudes que ela esperava. Mas isso, porque, talvez, de fato, eu não seja quem ela esperava. Eu não sou esse anjinho que ela diz que a cativa do jeito que sou, com as coisas que falo, escrevo ou faço. Eu sou comum, não tenho como fugir com ela. Talvez ela quisesse que eu fizesse isso. Quando percebeu que eu não faria, foi embora. Será que foi isso mesmo? Será que estou sendo injusto contigo meu amor?
Um dia você será minha companheira. Você um dia terá um homem que não te tratará como sua posse, que será jovem como você, sensível como você, solidário como você y enamorado como você.

14 de janeiro de 2008

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro


Você sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais
É de você que eu me lembro
Sempre você e ninguém mais,
e ninguém mais, e ninguém mais

Eu sempre tento e não consigo
Então as vezes quando a noite chega
Eu fico só comigo mesmo
E só me resta a saudade como companhia, como companhia

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

Você sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais
É de você que eu me lembro
Sempre você e ninguém mais, e ninguém mais, e ninguém mais

Você diz que não me quer mais
E que agora eu sou seu grande amigo
Você me quer só a metade
Mas pra mim você está em toda a parte, em toda a parte

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro
Eu não consigo

9 de janeiro de 2008

Invasão a sede nacional do PSTU é responsabilidade do Estado brasileiro


Muitos podem afirmar que o Brasil vive uma democracia. Mas, infelizmente, precisamos alertar as pessoas comuns honestas, porém, em certa medida, desavisadas que essa democracia tem dono. Vivemos sob a democracia dos ricos ou um regime democrático burguês, ou seja, a classe social para qual as principais instituições do regime atua é a dos capitalistas. Poderíamos dizer ainda que na verdade o regime brasileiro é subordinado aos interesses do capital internacional de conjunto, reduzindo-o então a uma “democracia semi-colonial”.

Evidentemente, o movimento de massas brasileiro não vive uma perseguição policial aberta, típica de um regime bonapartista ou fascista. Mas a crescente criminalização dos movimentos sociais já começa a chamar a atenção. O PSTU é um partido que não se rendeu a frente popular encabeçada por Lula e apoiada intransigentemente pelo PT, PCdoB, CUT e UNE. Pe1o contrário, o nosso partido desde o primeiro dia de Lula no governo exigimos que este rompesse com o FMI e a ALCA, deixasse de pagar a dívida externa. A história está aí para mostrar o que a frente popular fez contra os trabalhadores: salários de fome, cortes nas verbas sociais, não fez reforma agrária, manteve o desemprego. Por outro lado, os banqueiros e usineiros nunca lucraram tanto quanto no governo Lula.

É essa postura do PSTU que chama atenção dos serviços de inteligência do Estado. O assalto a sede do partido foi sim um ataque político. Toda a responsabilidade deve ser dada ao governo Lula. Este governo deve explicações ao PSTU e ao movimento operário, estudantil e popular.

Em 2008, tomaremos as ruas contra a reformas da previdência e o Reuni, mas também contra a crimizalização dos movimentos sociais que conheceu, infelizmente, mais um capítulo nesta virada de ano, com o ataque a sede nacional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

2 de janeiro de 2008

Um capítulo chamado 2007
Um ano que começou no dia 5 de janeiro. O dia em que saí definitivamente da casa da minha mãe e resolvi morar sozinho. Na verdade, o ano havia começado três dias antes. Em 2 de janeiro, saí de casa com o firme propósito de pedir demissão do meu emprego público. Alguns minutos de atraso de um ônibus me separaram de realizar (talvez) a maior idiotice da minha vida. Por conta dessa demora insuportável na condução, decidi encontrar com o meu futuro companheiro de apartamento: o G. Em um dia conseguimos o apartamento ideal, na rua Felipe Camarão, coração de Natal. Voltando ao dia 5, de fato esse fora o dia em que resolvi sair das asas de mi madre. Mas não era só isso.

Bom, o que importa é que o ritmo alucinante da vida havia transpassado 2006 e entrado com tudo em 2007. A farra não havia acabado. Isso, também, porque meus planos de lecionar história haviam fracassado. Eu estava de saco cheio de tudo, queria lagar o emprego, vivia em bebedeiras e orgias homéricas; raramente estava sóbrio. Foi assim nas férias de janeiro, no carnaval, em março. Surgiu até um hóspede indesejado, mas fazer o que? Pra que servem os amigos afinal?

O previsível ocorreu: no dia 15 de abril, fui posto pra rua! Tive que arrumar todas as minhas tralhas em poucos dias e arranjar um lugar pra ir. Nenhuma alternativa decente me aparecia pela frente já havia dias. Finalmente, um nobre companheiro do partido me ofereceu um pouso até as coisas ficarem mais calmas. Três dias depois eu já arrumara um novo emprego e pedira licença do meu emprego público (do qual já estava de saco cheio mesmo).

As coisas pareciam ficar mais ordenadas nesse período de 2007. Estávamos quase na sua metade, eu morava com uma família respeitável. Tinha um emprego digno e que eu gostava, por toda a novidade que aquilo representava. Por hora, estava mantido longe de encrencas e de novas farras desestabilizantes. Por volta de 20 de junho, eu já estaria ocupando o meu terceiro endereço, tecnicamente falando. Um cubículo que tinha lugar em uma viela, em alguma ruela de Lagoa Nova. Até hoje, nunca me importei de tomar o nome daquela “rua”, só lembro que o número da minha cela era sete!

Desse endereço não guardo nenhum significado especial, exceto o fato de eu conhecer a K., gerente do melhor cachorro quente da cidade. Importante dizer isso aqui e agora, pois afinal de contas esse foi o único jantar digno que por semanas me alimentaram. Mas, aquela cela estava me deixando louco e a cada dia mais pobre. 40% dos meus proventos serviam ao aluguel.

Foi assim que decidi iniciar a terceira (ou quarta) fase do ano. Procurei meu companheiro M. de algumas aventuras e de muitas afinidades artísticas. Afinal, ele também estava morando sozinho em um cubículo. Passei um mês com ele nessa célula e depois partimos para uma casa.

Às vezes pode parecer que a minha história de dois mil e sete é a história dos meus endereços e de minhas andanças. Mas não foi só isso: foi uma época de muita reflexão, experiências musicais, sexuais, existenciais, alucinógenas e literárias. Foi o ano de por em prática aquilo que eu sempre via com muita atenção e excitação os outros fazerem e contarem. De certo modo, às vezes penso que ultrapassei alguns limites. A única coisa que tenho certeza é que esse foi o ano mais beat de todos. Quanto a isso, ainda é cedo para afirmar se foi um ano bom ou ruim. Porque 2007 continuará sendo sempre um capítulo inconcluso da minha vida.