Para quem não leu a primeira parte aí vai seu endereço:
http://bsadan.blogspot.com/2008/12/trabalho-noturno-devagar-seu-estpido.html
Saquei o celular, digitei 190 e prontamente uma voz metálica assumiu o comando da conversa: “(...) posso ajudar?”, ao que respondi: “deixa pra lá...” e desliguei. Justo nesse momento a porta do boteco abriu-se de vez, e o jovem com o rosto enrubescido e os olhos em chamas saltou do bar quase que aos ponta pés contra todos os cestos de lixo do beco. Continha um grito que sufocava-o mais que tudo. O terceiro suspeito saíra das sobras e finalmente apresentava um rosto esquálido e embranquecido, tão assustado e nervoso quanto qualquer outra coisa já vista. Chegava a ser um nervosismo contagioso. O meu abrupto movimento quase denunciou a minha presença à cena do crime. O fantasma das sombras rastejou e saltitou até cair sobre as costas do jovem dando-lhe um baque tão poderoso que quase arruinou suas expectativas de voltar a andar outra vez. Só depois de um minuto em que os dois estavam prostrados no chão um sobre o outro é que surge uma primeira palavra balbuciada: “Você é louco?! Não sabes o que acabastes de fazer?”. Certamente quem disse isso foi o velho abutre que com uma certa coerência no olhar chamava a atenção do jovem intempestivo. A minha curiosidade vasculhava mentalmente a zona interior do bar, em busca de algum sinal do velho que fora até então o protagonista de todo aquele sórdido episódio. Uma noite que jamais deveria ter se passado em minha vida.
E pra acabar de vez comigo ouço o discurso mais desesperado e realmente é um desabafo do jovem aprendiz: “Meu pai, aquele que agora já possui frias carnes e repousa sobre uma poça de sangue arrancada violentamente das suas tripas por mim, nesse exato momento, se ainda estivesse vivo, deveria ser considerado por toda a humanidade como o verme mais desprezível que ousou pousar os pés sobre esta terra. Tu bem sabes que é assim titio. Pois teu irmão nunca poupou nenhuma alma em sua vida, inclusive as mais ingênuas, as pequenas Lucile e Flavinha, minhas pobres irmãzinhas, a quem tanto amei e que hoje, graças a estupidez e a brutalidade daquele cadáver podre, não estão mais junto a mim. Além disso, tendo minha mãe, e as outras duas esposas deste monstro ainda insepulcro, sofrido igual sorte, ou seja, sua total ruína e loucura. Tudo justifica a liquidação que dei a vida de um canalha podre e vil como era teu irmão! Olhe para mim! Veja no que me tornei... por que será que não consigo mais trabalho honesto? Como antes? É... quando eu tinha a Camila e pretendia ter filhos e talvez até cair fora dessa cidade, desse beco e dessa horda de fracassados e cafajestes... esses do tipo do teu irmão e seu também. Mas veja onde me meti: sou um ex-presidiário, um fugitivo para ser mais sincero, me transformei num procurado porque caí numa armadilha traiçoeira do meu pai. Certa vez ele me propôs um trabalho, disse-me que seria a minha grande chance de vencer na vida e finalmente casar com minha querida Camila. Fiquei entorpecido por vários dias só de imaginar tal possibilidade.”
A essa altura, eu estava perplexo com tais revelações mas ao mesmo tempo satisfeito porque todas as minhas expectativas estavam sendo cumpridas... Tratavasse o velho de mais um mal-feitor, cujo filho acabara de dar cabo a sua vida... Apenas esse elemento surpresa me incomodara profundamente... oh, claro... porque eu deveria ter percebido que tanta cumplicidade assim, só poderia se tratar mesmo de um drama familiar... e, no entanto, para mim só ficou claro após o longo e convicto discurso, daquele que não alimentava o menor remorso por ter cometido o mais violento e fulminante parricídio que tivera eu ouvido falar até aquela presente noite. Mas o garoto tinha muito mais a falar, e agora estava eu a me associar e a me solidarizar tanto com aquele jovem que quase o fiz publicamente ali mesmo, me revelando aos dois atores da cena mais emocionante que pude presenciar nas ruas de Natal. Porém resolvi ficar quieto e ouvir o que mais o garoto tinha a dizer: “...Mas veja só titio, o patife que você insistia chamar de teu irmão, preparou uma armadilha contra mim e me fez cair nela, você bem sabe disso... e onde eu fui parar? Na cadeia! Fui incriminado por estar diante do infeliz que ele matou, afinal ele precisaria manter-se livre para seus negócios sujos. Mas quem ele escolheu pra bode expiatório? Eu! E tu achas meu tio que mais uma vez eu iria esperar a mesma sorte. Iria ficar a guarnecer mais um cadáver posto em um freezer há mais de dois dias?! Pra limpar a barra do meu pai?! Tenhas a Santa paciência. Eu não sou louco nem muito menos masoquista. Resolvi por mim mesmo que era chegada a hora de dar fim àquele patife. Pois bem, agora aqui estou eu todo ensangüentado, mas de alma lavada. Porque vinguei de uma vez por todas aqueles que se arruinaram nas mãos deste maníaco.” “Chega!”, interrompeu com um ataque de desespero o tio do jovem trabalhador, “uma coisa é certa, tu tens razão do julgamento que fazes de mim e de teu pai. Realmente somos figuras desprezíveis e seria bom mesmo que no mundo não existem tantos assim como nós, porque a nossa filosofia é causar a dor, o desespero e a morte nas pessoas. Mas isso não é tudo! Uma vez que já estamos nesse mundo mesmo, às vezes alguns ratos como nós alcançamos um estágio de reflexão. Essa reflexão pode nos elevar a outros estágios, esses superiores... Não temas, não quero te enganar mais uma vez! Apenas quero eu te abrir os olhos e lamentar o primeiro crime que cometestes... pois é assim, já que teu pai, apesar de ainda manter sua grosseria, não era mais um bandido... apesar de que para o mundo a escória não tem jeito... Oras! Deixemos isso agora de lado, venha aqui... venha até o cadáver do teu pai... tu achas que dentro do freezer encontra-se um infeliz morto?! Estás enganado!” Meu coração saltitou, sem entender mais nada. Quando o jovem e o tio finalmente abriram o baú refrigerado nada mais encontraram do que cerca de oitenta quilos de carnes, de todos os tipos... um amálgama avermelhado e sanguinolento.
O filho matara o pai como forma de vingança contra os erros do passado do seu pai, e também como uma espécie de defesa preventiva diante mais um suposto crime iminente, mas que não se cumpriu. E aí reside a maior razão de seu instântaneo arrependimento. Justamente por se tratar de uma fantasia, cujo tio após vinte minutos de explicação desvendara ao sobrinho recém fugido da cadeia estadual que nos últimos cinco anos, ele e seu pai haviam se recuperado aos poucos e que o submundo não era mais um lugar onde os achariam. A razão de todo o sigilo da operação, o transporte de carnes na calada da noite tinha a ver com o novo negócio ao qual os irmãos iriam se meter em sociedade. Tanto o pai quanto o tio do jovem ex-presidiário decerto ainda não tinham todas as contas acertadas com seus credores e principalemente com a vigilância sanitária, acreditavam poder conseguir isso mais adiante quando o negócio finalmente se consolidasse. Ao ouvir todo esse relato o garoto não esboçou nenhuma reação. Deu com os ombros para o tio, virou as costas para o cadáver de seu pai e alertou que ao amanhecer entregar-se-ia a primeira DP.
Só aí pus-me a refletir: “quanta sorte a vida destina a alguns miseráveis? Que por mais que tentem consertar as besteiras dos outros, acabam afundando-se em suas próprias besteiras. Estas maiores ainda. É aí que eu compreendo de uma vez por todas: não existe boa sorte. Existe uma sorte que não possui um caráter (boa ou má). O que existe sim é o estar pronto para cometer um ato de ousadia, seja um acerto de contas, uma conquista, uma aposta, uma competição. Ter sorte é ter ousadia. É arriscar. O jovem Cássio arriscou fazer justiça... Agora será a justiça que fará bom proveito de mais um pobre espírito desgraçado.”






